Comtudo os olhos do Rei, semi-cerrados, e a sua respiração offegante não permittiam illusão!...
Então aquella mulher, a quem o destino parecia ter talhado uma tão radiante missão, sentiu-se miseravelmente infeliz, e cahiu junto á cama do moribundo n’uma convulsão de choro, implorando a protecção de Deus e da Virgem Maria.
Assim se conservou largo tempo...
Pelas janellas entreabertas ouvia-se de quando em vez o carpir do povo, sempre exhuberante nas manifestações do seu sentir. Os lamentos da multidão, impressionada com os presumiveis sinistros casavam-se com as preces roufenhas dos sacerdotes, e com os soluços da Rainha.
Sentia-se o destino da Nação suspenso por um fio...
A autonomia de Portugal dependia de um alento d’aquelle homem, estendido n’um catre estreito, junto do qual o vulto de D. Filippa continuava rezando...
Passaram horas...
Como se a mysteriosa acção das préces, e o esforço superhumano d’aquelle coração de mulher posto n’um só affecto, operassem mais efficazmente que as drogas ministradas pelos physicos, o arquejar do robusto arcabouço foi-se tranquillisando, os olhos começaram a descerrar-se, e o enfermo entrou a renascer para a vida...
Estava salvo D. João I!