O rancho conturbado caminhava silenciosamente, sob a oppressão de agourentos presagios.
Chegaram ao Paço do Curval. Alli, o estado do Rei não era de molde a tranquillizar, ou desfazer cuidados.
Quando a Rainha e o Duque seu pae viram o enfermo, vencido pela febre «tão fraco e sem esforço que adur lhe podem fallar, ficaram nojosos e tristes».
Os cirurgiões interrogados temiam que a prostração em que a quentura deixára o Rei o levasse em pouco. Ouvindo isto, a desditosa Rainha, atormentada, e exhausta com a violencia da jornada e das commoções, sentiu que alguma coisa se despedaçava dentro em si... e moveu uma creança.
Com este parto prematuro e desastrado, iam-se todas as alegres esperanças, desmoronava-se o edificio da sua felicidade sonhada, e... (cousa rara na vida) da sua felicidade realizada.
Via-se sósinha, casada de pouco em terra extranha, fallecer-lhe logo assim tudo o que a fortuna lhe trouxera «e bem se tinha por mal aventurada entre as mulheres do mundo». Chorava, pedindo á morte que a levasse primeiro.
Na Camara proxima, onde os lamentos da Rainha, por serem energicamente suffocados, não chegavam, o Rei, conscio do seu estado, tomava providencias.
Mandava chamar o Condestavel, agora ausente no Alemtejo. Fazia testamento. E dispunha-se a morrer perdoando a alguns fidalgos que mandára, tempos antes, encarcerar.
Era solemne o momento. A Rainha, receiosa de que a morte lhe roubasse o marido, como lhe roubára o filho, levantou-se e, embora gravemente combalida, arrastou-se até ao quarto onde o Rei agonizava.
Não sabia reter as lagrimas. A voz embargava-se-lhe na garganta. Olhava-o, sem articular uma palavra, tomada d’aquella ancia com que nas occasiões decisivas tentamos arpoar um vislumbre de esperança.