Era uma solemnidade symbolica, ordenada pelo rito tradiccional das Aulas Regias, para significar a intima reunião do Rei—Pae e Pastor d’um povo—com os representantes de todas as forças da Nação, n’uma reciproca aspiração ao bem commum.
A Côrte, no significado de assembléa que rodeia um soberano na sua missão augusta de governar, e formada com o que antigamente compunha os Trez Estados, juntava-se n’esse dia, em que o kalendario volta uma pagina no revolvêr do Tempo, para se congratular com o magistrado supremo, e com elle trocar votos tendentes á estreia de um anno feliz.
Na vespera realisára-se na Sé o Te-Deum em acção de graças pelo acabamento do anno anterior.
No dia seguinte abrir-se-hia o Parlamento, a que a Constituição attribuia a tarefa de fazer leis.
N’esta data, as Camaras legislativas e municipaes, os Prelados, os Grandes do Reino, os representantes do Exercito e das Corporações administrativas e scientificas, concorriam ao Paço para solemnisarem em grande gala o Anno Bom.
Desde manhã, pela extensa ladeira que de Alcantara leva ao Palacio de Nossa Senhora de Ajuda, uma fila de carruagens ia conduzindo, em fardas rutilantes, em uniformes garridos, em vestes prelalicias de setim, e em roçagantes sedas brancas com manto azul, o corpo diplomatico, os Ministros, os Conselheiros de Estado, os magistrados, a officialidade de terra e mar, e as senhoras emplumadas com os vistosos cocares do seu caracteristico vestuario de Damas.
Transportes varios, uns modestos puxados por famelicos rocinantes, outros levados a trote largo pelos impacientes pur sang, iam entrando sob as abobadas do atrio, ao som do «Hymno da Carta», que a banda da guarda de honra entoava.
De quando em vez um coche apparecia, balouçando-se nas correias das suas molas.
Era agora o do Duque estribeiro-mór que quatro machos de Alter tiravam.