É de hontem, mas parece já um capitulo arrancado de alguma chronica esquecida, a evocação de figuras e scenas, que a repetição do dia de Anno Bom faz passar nitidamente na nossa retina espiritual.

Figuras, algumas d’ellas que na voragem se sumiram, outras a quem o Tempo irreverente vae empoando as cabeças.

Scenas, que se diluem nos nevoeiros de um passado recente, mas cuja recordação vae tendo aquelle atrahente poder e mysterioso encanto, que fez exclamar ao mais attico dos prosadores francezes:

«C’est une puissante douceur que de sentir revivre en soi les vieux âges.»

Abrindo no dia d’hoje[3] um parenthesis ás preoccupações com que os telegrammas da grande guerra trazem alvoroçados os espíritos e confrangidos os corações, e fazendo votos para que o anno que entra traga a Portugal a parte da victoria a que tem direito, seja-nos licito repassar na memoria uma das solemnidades com que a liturgia tradicional celebrava o inicio de um novo anno.

Não era apenas uma exhibição ostentosa de pompas, uma feira de vaidades, ou um estendal pueril de mantos, de joias, de fardas e de condecorações.

Não era, como muitos praguentos affirmavam, o curvar servil de algumas centenas de dorsos perante a hieratica rigidez dos idolos reaes; nem a mesquinha caricatura da cortezania, com que a musa offenbachiana se celebrisou, nas notas gaiatas e ditos picarescos do Barba Azul, de galhofeira memoria.

Não tinha tambem o humilhante aspecto de subserviencia que algumas almas artificialmente e postiçamente orgulhosas attribuiam á cerimonia de um Beija-mão, alardeando, com supposta altivez, argumentos sediços e logares communs sobre a dignidade humana.

No fundo da consciencia d’estes philosophos (d’aquelles que a tinham) uma voz lhes segredaria ser muito menor aviltamento beijar a mão de uma Rainha (pois que o uso já de ha muito revogára a pratica de a beijar ao Rei) do que incensar com lisongerias qualquer tyranete de capelista.

A recepção do Anno Bom significava mais e melhor que uma simples parada de grandezas, e um monotomo desfilar de funccionalismo anonymo.