Vinha n’esse dia á frente do seu Ministerio saudar o chefe do Estado.

Confiára o encargo de resolver o conflicto recente a Barbosa du Bocage que, violentamente arrancado do gabinete de naturalista, puzera todo o seu patriotismo e clara intelligencia no encetar as laboriosas e delicadas negociações para normalisar as nossas relações com a Inglaterra.

A seu lado destacava-se a figura attrahente de Thomaz Ribeiro, Ministro das Obras Publicas, aureolado pela gloria nas lettras patrias, pelos triumphos na oratoria, e pelo exito nas missões que desempenhára na India e no Brazil. Conversando com elle amigavelmente, o titular da Marinha e Colonias, Antonio Ennes, magro, erecto, sublinhando as palavras sóbrias com um sorriso de espirituosa ironia. Os dois entendiam-se pela intelligencia e pelo coração. N’esse momento, deixadas as preoccupações das suas pastas, reciprocavam a sincera admiração, que a ambos inspirava a figura moral da Rainha D. Amelia.

Antonio Emilio de Sá Brandão, que entrára para a Justiça, representáva n’esse ministerio a antiga nobreza de toga, á qual se orgulhava de pertencer, tendo ascendido a Presidente do Supremo Tribunal.

E, como Ministro do Reino, Antonio Candido, o Principe da palavra, e a mais fulgurante gloria da tribuna portugueza, cuja personalidade se impunha pela força do talento, pela rigidez do caracter, e pela arte com que manejava os homens e conduzia os acontecimentos; correcto na sua casaca com a banda de S. Thiago, consagrando o valor do sabio e do artista do verbo, avançou até aos degraus do throno para apresentar ao Monarcha os discursos com que havia de responder ás saudações das Camaras.

Pequenos grupos, formados segundo as affinidades politicas ou sociaes, trocavam impressões sobre os successos recentes. José Luciano approximára-se de Antonio de Serpa, significando com esse gesto que a imprensa dos dois partidos, a do progressista com o Correio da Noite, a do regenerador com a Gazeta de Portugal, se harmonisava para dar força ao Ministerio na sua acção patriotica.

E no canto da janella grande, que abre sobre a Outra Banda, o conde de Valbom, arguto, destro no argumentar, e insistente, expunha qualquer plano a Lopo Vaz, ministro da vespera e ministravel para o dia seguinte, que o ouvia com aquella ironia bonancheirona a que alguns chamavam machiavelismo, e outros habilidade politica.

Hintze Ribeiro, que então ainda não empunhava o bastão de chefe, mas que ia creando atmosphera, attrahia, com o iman da sua subtil dialectica, elementos para futuras situações.

Entre os zun-zuns mundanos e os quolibet politicos, surgiam commentarios a algumas raras abstenções na concorrencia.

—Porque faltaria Fulano?