E o Rei, cahindo em si, pois que n’elle estes assomos de colera eram logo dominados pela força calmante da razão, emendou:

—«Nem eu não o digo por vós. Mas digo-o, porque os hei já por tomados.»

Dividiam-se ainda as opiniões. Uns queriam continuar o assalto, na esperança de farta preza. Outros seguiam o alvitre razoavel do ponderado Sá, com o qual o Rei concordou afinal, enviando o Prior do Hospital a acceitar a preitezia e estipular as condições.

Foram todas acceites. Não só entregariam a villa e castello a El-Rei, mas obrigavam-se a sahir da fortaleza em gibões sem outra cousa...

Assim foi. No dia seguinte, o rapazio foi apanhar feixes de varas verdes, e cada um dos que pela porta do castello ia sahindo era, por escarneo, obrigado a empunhar um d’esses ramos.

Alguns mordiam-se de raiva pela humilhação imposta.

Houve até um escudeiro fidalgo que, fincando os joelhos em terra, pediu a El-Rei que lhe entregasse as suas armas e lhe poupasse a deshonra, ao que D. João I galhardamente accedeu.

Outros, comtudo, com riso forçado, e levemente alvar, como gracejando, tomavam o expediente «por sabor» de dizer aos garotos que lhes davam as hastes verdes:—«Ai, rogo-te ora que me dês uma bem direita e bôa».

Não ficou nenhum! Quando na quinta-feira seguinte, depois de cincoenta e trez dias de assalto, o castello e villa de Melgaço foram entregues a João Rodrigues de Sá, para governar; e quando El-Rei e a Rainha retiravam festivamente com a sua comitiva em direitura a Monsão, do alto da muralha, que olha para noroeste, um vulto de mulher (segundo reza a tradição local), empunhando a bandeira gloriosa das quinas, agitava com ufania esse pendão redemptor.

Era Ignez Negra a batalhadora, imagem symbolica das energias femininas, proclamando assim a victoria que consolidava de vez a fronteira no extremo norte de Portugal.