D. Francisco Coutinho, 4.º Conde de Marialva, e Meirinho-mór do Reino, era, no primeiro quartel do seculo XVI, um dos mais notaveis fidalgos da Peninsula. Os seus annos (andava pelos setenta quando a tempestade estalou), os seus serviços (já fôra Alferes-mór de El-Rei D. Affonso V, e batalhára em Castella e em Africa), a sua fortuna (pois a casa Marialva era reputada das mais ricas) tornavam-n’o respeitado por todos, gozando de uma grande reputação e auctoridade.
Tinha uma filha unica, D. Guiomar, que «pela pessoa e riqueza era considerada o maior casamento que então havia em Hespanha».
O velho Conde, embora nobre e rico, ambicionava para a cabeça da filha uma corôa fechada, e não lhe desagradava a idéa de que ella trocasse as suas armas por um escudo com banco de pinchar. Queria vel-a Infanta de Portugal. Não se atreveu a aspirar ao herdeiro do throno. Mas como El-Rei D. Manoel tinha mais filhos pretendera que este a acceitasse para o Infante D. Fernando então ainda creança.
O Rei Venturoso não era indifferente á seducção do oiro. Accedeu aos desejos do Conde, por lhe parecer (escreveu elle) cousa proveitosa para o Infante e para o Reino.
Morrendo entrementes D. Manoel, seu filho, D. João III, não se demorou em dar cumprimento ao ajustado e, na casa do Conde de Marialva, em Março de 1522, fizeram-se as capitulações para se effectuar o casamento logo que o Infante chegasse aos dezesete annos.
Estavam as cousas n’este ponto, quando um dia surje no Paço o velho Conde de Marialva, allucinado, afflicto, fóra de si, e deita-se aos pés d’El-Rei clamando justiça.
Era o caso que D. João de Lancastre, Marquez de Torres Novas, filho da Senhor D. Jorge, Duque de Coimbra, com um atrevimento inaudito, viera oppôr-se ao matrimonio de D. Guiomar, allegando «que muito antes do contracto com o Infante Dom Fernando era elle casado clandestinamente com a filha do Conde, e determinára pôr este caso em juizo».
—«Era uma affronta á sua velhice (gritava o velho), era uma injuria ás suas cãs. Era tambem para El-Rei um insulto, pois que, fiado na pouca edade do soberano, o Marquez esperára a morte d’El-Rei D. Manoel, julgando que a inexperiencia do successor lhe facilitaria a empresa.»
D. João III ouviu attentamente o velho Conde...