Emquanto viveu El-Rei D. Manoel foi o Duque de Coimbra amimado constantemente com provas de affavel generosidade, e carinho.

Se adoecia, logo o Rei o visitava pessoalmente, o que era testemunho de grande consideração. E tão alta era reputada essa honra que a primeira vez que o Duque adoeceu depois da morte de D. Manoel, seu filho El-Rei D. João III reuniu Conselho para resolver se o devia visitar.

Os do Conselho approvaram, mas o Duque resentiu-se com a idéa da consulta.

No dia em que D. João III se apeiou á porta do palacio do Senhor D. Jorge estava este convalescente. El-Rei sem demonstrar apressurado zelo, atravessou as salas de espera, as do estado e deixando de lado a sala do Throno, dirigiu-se directamente aos aposentos particulares do Duque. Estava este ennovelado n’um ferragoulo de velludo escuro, quasi sumido entre os braços de uma cadeira de couro com pregaria amarella, e assistia interessado a uma partida de xadrez, que dois creados jogavam, para o divertirem, quando El-Rei entrou. Este, vendo retirar a mesa e taboleiro, perguntou ao Duque se gostava de vêr jogar. Respondeu este logo, sublinhando as phrases:

—«Senhor! Quando El-Rei vosso pae, que santa gloria haja me honrava com sua presença, por me divertir nas doenças, elle mesmo com summa benignidade se punha a jogar por me divertir.»

Este remoque levava a intenção de mostrar o desgosto que tivera com o saber que El-Rei, consultara o conselho para o visitar, o que contrastava com as intimidades recebidas de El-Rei D. Manoel.

Os Reis desadoram que lhes joguem biscas. D. João III, mais arguto do que muitos julgam, sentiu o alcance da picuinha e enguliu em secco. Abreviada a visita retirou-se carrancudo.

Este caso não os desuniu. Mas o que é certo é que nunca houve d’este Rei para com D. Jorge aquelle carinho que elle merecera aos dois predecessores.

Bem se mostrou quando foi do conhecido escandalo provocado pelo Marquez de Torres Novas.

Recordemol-o de passagem, visto que d’elle foi protagonista um filho do Senhor Dom Jorge.