Nunca manegei um diccionario em cata de palavras antiquadas para surprehender artificiosamente a estupefacção do leitor, nem recorri de fito feito á licção dos classicos, no proposito de apparelhar uma phrase com alfaias de molde a inculcar-me senhor dos arcanos da lingua.
Adoro a simplicidade no dizer e a naturalidade no discurso. Os melhores auctores são sempre, para mim em qualquer lingua, os que escrevem com mais clareza. Foi com esses que se formou a grammatica e se creou o gosto. Castilho,—Garrett, Herculano—mestres de todos nós, depois de rumiarem a herança dos avoengos litterarios atravez da confusa syntaxe medieva, ou da labyrinthica construcção quinhentista, ou dos pretenciosos gongorismos dos humanistas, ou dos prolixos arrazoados do seculo XVIII, deram com a sua prosa castiça, ao nosso lindo idioma, a crystalina transparencia, que tão bem se harmonisa com a sua aristocratica origem.
Se, porém, no decorrer da oração, pinga, do bico da minha penna um vocabulo de que se perdeu o uso, ou uma locução que, embora tocada da ferrugem do tempo, expressa significativamente a ideia, não me tolhe o receio de que me alcunhem de affectado, ou me accuzem de calamistrar propositamente os periodos. Deixo-o ficar.
Assim eu pudesse, com engenho e arte, trazer á minha prosa os termos, os vocabulos, as locuções, hoje perdidas, que tanta nobreza e lustre davam á linguagem portugueza.
Assim eu soubesse usar com discreto artificio das riquezas, que nos legaram os bons doutores da palavra escripta!
Quem lograsse hoje pôr ao serviço de ideias modernas a ferramenta com que trabalharam os Barros, os Coutos, Manuel Bernardes ou Francisco Manuel de Mello, quem conseguisse dar aos pomposos processos do classicismo novas articulações, e a flexibilidade que torna a phrase ductil e lhe dá graça, teria creado a forma mais elegante do verbo humano.
Já um sabio conspicuo preconisava, como a melhor receita para nos desfazermos do ranço dos extrangeirismos, que tanto tem contribuido para a nossa desnacionalisação, o uso diario de—caldos de Vieira.
Estomagos ha, bem sei, que não acceitam de bom grado tão substancioso alimento e se obstinam nutrindo-se com traducções atabalhoadas de romances francezes. Se porém cada traductor ou cada operario de lettras, todas as manhãs, antes de entrar na officina, se decidisse a confortar o esophago com uns goles de humanidades, em breve a multidão dos leitores se encontraria mais rica nas boas artes e com um glosario mais abundante.
Vem isto a pello para explicar a preferencia dada ao vocabulo Antanho no titulo com que embucei este livro.
É antiquado? Cahiu n’um meio esquecimento? Não está admittido no emprego diario, nem adoptado na giria das salas?