Mas que me diga quem quer que me leia se, para significar tudo aquillo que é anterior ao momento actual, ao anno em que vivemos (ante annum) não o julga mais proprio, mais perfilhavel e de mais agradavel euphonia que o corriqueiro Passado.
No termo Passado, é certo cabe tudo o que existiu no tempo, e os homens registaram nos seus papyros, canhenhos e tabuas enceradas, ou seja Tacito nas paginas dos Annaes, ou Suetonio nos Doze Cesares, ou Strabão na Geographia, ou os chronistas, narradores, memoristas e bisbilhoteiros de Côrte, desde o indiscreto Saint Simon ao mexiriqueiro Pepy nos Gossips da gente ingleza; e entre os nossos o Bispo do Grão Pará nas suas Memorias, ou a dôce Condessa de Atouguia nas confidencias auto-biographicas.
Mas em Antanho conchava-se melhor aquillo cujo desapparecimento nos deixa a penosa sensação de que não volta mais, de tudo o que se esvae na poeira da vida, de tudo o que a lenda envolve na nebulosa recordação, de tudo quanto o bafejo das edades embaciou, de tudo quanto a morte fez tombar.
Do Passado tracta a Historia, illuminada pela Philosophia.
Antanho é a evocação animada do que existiu, amorosamente acariciada pela phantasia.
O Passado é a realidade positiva testemunhada por documentos.
Antanho é a reconstrucção conjectural das eras anteriores.
O Passado é a biographia da humanidade.
Antanho é o poema da Vida e da Morte.
Plutarcho escreve acerca dos varões illustres do Passado.