D’estes documentos, que effectivamente nos esclarecem alguns pontos da chronica cortezã, tira Luciano Cordeiro conclusões imprevistas e, com especiosa hermeneutica, chega a encontrar n’elles elementos para explicar os ignorados motivos do casamento de El-Rei D. Manoel com a noiva do proprio filho.
Para isso, obrigando as palavras a significarem mais do que naturalmente os lexicons permittem, tem que dar como certo que D. Brites, no seu idyllio com o Principe D. João, resvalou imprudentemente, se não impudentemente, pelas margens floridas do rio, que banha os valles de Cythera.
E tem que attribuir ao proprio Rei a feia pecha de conspurcar a honesta fama de sua sobrinha, assumindo, declaradamente cynico, o papel odioso de atirar a pobre menina, com a sua supposta mancha, ao thalamo do Conde de Alcoutim, tambem seu parente, e um bravo militar, que servia em Ceuta.
Luciano Cordeiro depois de expôr aquillo a que elle chama—a Lenda—, e que é a Historia tal como nol-a transmittiram os chronistas comtemporaneos dos factos, apresenta a versão, que dá como assente, quando diz:
«Perjudicada a idéa do casamento do Duque D. Jayme com a litterata filha do seu orgulhoso adversario, o Marquez de Villa Real, ficára naturalmente mallogrado tambem o outro termo do régio plano:—o casamento do filho do Marquez com a juvenil sobrinha d’este e do Rei, Dona Brites de Lara, a neta do Duque de Vizeu. É até permittido duvidar da sinceridade do Rei quando em Setubal a promettera por nóra ao Marquez, como este lhe lembrava na colerica carta de 1515. D. Manuel tinha acerca de D. Brites bem diversas ideias.»
Fallando depois na inclinação de Dona Brites pelo herdeiro, accrescenta aquelle escriptor: «embarcaram ambos n’um idyllio de secretos e desaustinados (sic) amores, emquanto o Rei, o Duque e o Marquez, gente pratica e sisuda disputavam gravemente a quem ella havia de querer e dar-se. Deu-se a D. João. Não deixa duvida o dizer dorido e indignado do proprio D. Manoel a D. Jayme.»
Como se vê, Luciano Cordeiro dá como certo aquillo que o proprio D. Jayme (mais interessado e mais bem informado que o impetuoso escriptor) parece contestar nos seus apontamentos.
Mas além d’essa affirmação, Luciano Cordeiro accrescenta que «surprehendidos por El-Rei estes amores... e dada a obcessão apaixonada do Principe D. João por D. Brites... não sómente a revelação positiva d’este caso até agora escondido, desconhecido, e absolutamente inedito dissolve e arreda o conto já de si soffrivelmente inconsistente da paixão do Principe por D. Leonor, que não vira, como illumina e explica, facil e naturalmente a historia do terceiro casamento de Dom Manoel».
Depois, seduzido ainda pela ideia de modificar a Historia affirma que D. Manuel, vendo que o herdeiro envolvido em tratos de amores com D. Brites se recusaria a honrar o compromisso do pae e a sacrifical-a ao empenho da politica real, desposando a Princeza castelhana, resolve elle tomal-a como esposa.
Por este arrazoado aqui resumido já o leitor sente a inconsistencia da critica d’este investigador, que na ancia de tirar effeitos de documentos escondidos, desconhecidos e ineditos, se lança nas regiões da phantasia, chegando a interpretar a mania que sempre teve D. João de se vestir á portugueza, como uma homenagem a Dona Brites, em opposição aos que ostentavam trajos flamengos para fazerem a côrte á nova Rainha.