Por muito que diligenciassemos achar, lendo e relendo esta ultima comedia, as pretendidas allusões, e tentassemos levantar o sendal que velou as taes circunstancias, não encontrámos maneira de identificar a Rubena, gemendo ao sentir as dores da maternidade, com a avó de D. Brites; nem esta com a pastorinha Cismena, que nas suas invocações exclama:

«Oh! mãe de filha perdida
Oh! filha de mãe prenhada
Sem ventura.»

Tambem não encontrámos a menor parecença entre o futuro D. João III, e o pastorinho per nome Joanne, que pergunta a Cismena quando entra em scena:

«Di, rogo-te Cismeneninha
Viste-m’a minha burrinha?»

E sobre tudo não vemos motivo para D. João se lisongear com a allusão.

Nos versos, com que o Licenciado apresenta o argumento da peça, quer o Sr. Theophilo Braga encontrar uma referencia á aventura amorosa do Duque de Vizeu:

«En tierra de Campos allá en Castilla
Habia un abad, que alli se moraba
Tenia una hija, que mucho preciaba,
Bonita, hermosa á gran maravilla

Com este trocadilho, especie de calembourg, formado com o tirar meia palavra ao final de um verso—villa—para o juntar a um adjectivo anterior—hermosa, formando o titulo—Villa Hermosa, com que alludiria á Duqueza, o nome d’esta heroína fica por tal fórma rebuçado que, embora demonstre engenho, não abona a hypothese. E menos se encontrará qualquer fundamento para ella no decorrer da peça em que a phantasia do poeta vôa de Castella para Creta; mettendo em scena pastores, diabos, feiticeiras, e todo o arsenal vicentino.

Não é licito tambem pensar que em plena côrte de D. Manoel, já casado com D. Leonor no tempo em que a Rubena se representou (1521) o comediographo na intenção de ser agradavel (?) ao Principe, se permittisse recordar o galanteio de pouca dura entre este e a priminha, agora tambem já casada com um grande fidalgo, um valente militar, um homem que Gil Vicente estimava e respeitava.

São provas d’esses sentimentos as citações referentes ao marido de D. Brites que se encontram nas obras do poeta.