Entre as orações dos Grandes de Portugal a Nossa Senhora, depois de enterrado D. Manoel, lá poz Gil Vicente a do Alcoutim. E no Romance á acclamação de D. João III, quando os Grandes do Reino lhe beijam a mão, depois dos dizeres do Duque de Bragança, do Mestre de Santíago, do Marquez de Villa Real, do Bispo d’Evora e dos Condes de Marialva de Penella, de Tentugal, e da Feira accrescenta:
«Diria o Conde d’Alcoutim
Beijando a mão preciosa:
Deus vos dê vida ditosa
E tire os dias de mi.
Pera vossa vida e nossa», etc., etc.
Ora Gil Vicente não poria esta linguagem na bocca do Conde, se porventura tivesse querido na Comedia de Rubena lisonjear o Principe com allusões, aliás de máu gosto, aos suppostos amores da Condessa, embora do tempo de solteira.
Esta tentativa, porém, de encontrar na Rubena situações e personagens identicos aos do episodio cortezão, se carece de fundamento, não deixa de ser engenhosa como jogo de espirito, habilmente architectado com mais ou menos verosimilhança.
Fechado este parenthesis voltemos agora á outra these. Essa colloca tão deploravelmente todos os actores que entram em scena, traz á historia consagrada tão grandes modificações, e carrega com tão graves responsabilidades os chronistas que a escreveram, que necessitamos examinal-a com alguma attenção e desprevenido criterio.
Não pretendo de modo algum, (seja dicto desde já), arvorar-me em paladino da nobre Brites, futura Condessa de Alcoutim, futura Marqueza de Villa Real, e mãe d’aquella que havia de ser a primeira Duqueza de Aveiro.
Não o necessita a sua memoria.
Nem tenho procurações, enviadas de além tumulo, dadas pelos que se pretende fazer figurar tão deprimentemente n’este pequeno drama. É excusado pois allegar provas de que El-Rei D. Manoel não era um cynico e um diffamador; de que o Duque D. Jayme, cujos defeitos a historia registra sem poupança, não póde ser acoimado de ambicioso vulgar, que põe de parte escrupulos na ganancia de augmentar o patrimonio do filho; de que o Marquez de Villa Real era incapaz de menosprezar a dignidade do seu nome reclamando e acceitando uma nóra «já poluida» como quem realiza um «soberbo negocio»: e de que o Conde de Alcoutim não era homem que ao voltar de Ceuta soffresse a imposição de lavar, com o seu nome limpo, a mancha cahida na candura virginal da noiva.
Finalmente não venho com a pretensão de defender os creditos dos chronistas Damião de Góes e Francisco de Andrade, accusados de terem contribuido com os «seus testemunhos autorizados» para se formar aquillo a que se chama a Lenda, mas deixando «adivinhar nas entrelinhas a verdade». Nem tão pouco me arrogo a tarefa de desviar de sobre a cabeça de Frei Luiz de Sousa a culpa de ter insinuado «com a sua penna cortezã» motivos falsos para o casamento de D. Manoel, ou de illibar D. Antonio Caetano de Sousa do delicto de «fazer cópias viciadas por piedosa ou cortezã intenção, forçando e escondendo quaesquer vestigios que certamente encontraria, do recalcado escandalo.»