A minha intenção é sómente pôr de sobreaviso o leitor, para se não deixar involuntariamente seduzir pelo apparato conjectural da versão romantizada.
Muito longe leva a phantasia quando se pretende a todo o transe defender uma these, acariciada pelo amor proprio de auctor!
Conheci pessoalmente Luciano Cordeiro. Tinha um excellente caracter. Era um trabalhador bem intencionado, um investigador a quem se devem muitos trabalhos de merecimento.
Mas não só litterariamente carecia de uma penna attica que tornasse menos pesada a sua prosa, e mais elegante a sua erudição, como tambem nos seus juizos era arrastado por violencia tão intransigente no apresentar das affirmações, que chegava a attingir a bôa memoria de algumas figuras femininas e a auctoridade de alguns historiadores.
Já na obra intitulada: Senhora Duqueza, pretendendo, aliás com bom designio, descarregar a memoria do Duque, desnuda indirectamente o coração de D. Leonor, e entra tambem a accusar D. Antonio Caetano de Sousa e outros genealogistas.
Menoscaba-lhes a probidade profissional e alcunha-os de falsarios, sem outro motivo senão o do auctor da Historia Genealogica, e os outros escriptores, não favorecêrem a sua these.
Aqui o caso é identico. Arrastado pela ideia de rectificar episodios historicos, excedeu a méta, e atropellou os obstaculos que encontrava.
Os documentos a que nos referimos, embora valiosos e interessantes, não têem o pezo que lhes attribue, nem d’elles se podem extrahir as conclusões de alcance historico que n’elles deseja encontrar.
Começa por dar a duas palavras alli empregadas o seu significado actual que differe do que então ellas tinham.
Honra—Escandalo. Não possuiam estes vocabulos, no seculo XVI o sentido que agora se lhes liga e com que Luciano Cordeiro interpreta os periodos da carta de D. Manoel.