Sómente, encarando o galanteio do filho como uma ameaça á realização dos seus planos, e desejando afastar da côrte tão perigosa e perturbadora creaturinha cuja belleza iria causar «desaseguo» e tirar «descanso e contentamento» resolveu, antes que houvesse mais corações captivos e cerebros estonteados, que ella casasse com o primitivo noivo, que a levaria para o faustoso solar de Villa Real, ou para o seu commando de Ceuta.

Descobre-se na mensagem de El-Rei D. Manoel, é certo, bastante azedume por ver que a tentadora rapariga lhe alterava os projectos, e contrariava a vontade, que era casal-a com um dos Infantes. Resistir-lhe era motivo bastante para o exasperar. Enfeitiçar-lhe o filho, uma aggravante que trazia magoa para a sua honra.

Cumpria por tanto dar-lhe depressa um destino, que evitasse futuras complicações.

Iracundo, chega mesmo a affirmar na carta, que lhe diminuira o dote.

Mas d’ahi a cahir na baixeza de declarar, que a sobrinha era barregã de seu filho e que por isso a ia dar a outro sobrinho, ha grande distancia, que não se deve galgar de animo leve.

O proprio Duque D. Jayme, a quem El-Rei dirigia a mensagem, deu tão pequena importancia ao incidente, que nos seus apontamentos, em que responde ao Rei, ainda a pretende para seu filho, como se deprehende da contra-resposta de D. Manoel.

Este no entanto intimava por um cartão a seu filho que puzesse ponto no derretimento, e compunha d’este modo as peças do xadrez matrimonial, evitando um chéque ao Rei.


E ella, a quasi Infanta, a filha do Condestavel, seria a cabecinha leviana, a estouvanada, aquella a quem pesava mais o coração do que a cabeça, como a querem figurar?

Formosa, sim. Todos o asseguram. Seductora, sem duvida. Sensivel e romanesca a sua imaginação, levantar-se-hia em vôos audaciosos até ao throno, sem que isso revele uma aspiração desairosa, posta em pratica por processos degradantes.