É difficil imaginar o que seria uma d’estas funcções na Côrte mais rica e faustosa da Europa, para celebrar as bodas dos Duques de Aveiro, ambos parentes de El-Rei. Nas paredes os Razes e as tapeçarias de Flandres figuram scenas da antiguidade ou da mythologia. A luz macia dos brandões, que os pagens, vestidos de côres garridas, empunham, illumina as salas, povoadas da melhor nobreza. Brocados e sedas, e pannos de ouro adornam as lindas portuguezas.

Fios de perolas entrançam-se nos seus cabellos, e nos afogadores rutilam pedrarias custosas. Os purpoens e justilhos dos cortezãos entrecruzam-se com as vestes prelaticias dos Bispos e do Nuncio.

A musica da camara, em que se fazem ouvir João de Badajoz e os Baenas, Nicoláo de Estovar, tangedor de harpa, e os ministris mais habeis, entôa uma marcha mesurada, ao som da qual começa o baile.

Dansam: El-Rei com a Rainha D. Catharina, grave e severa nos seus velludos escuros; o Infante D. Luiz com a Infanta D. Maria, cuja belleza loira, porte altivo e deslumbrante donaire attrahem todas as attenções.

Não menos chamam a curiosidade os dois esposados, dansando juntos; ella graciosa no curvar das reverencias, elle inclinando-se com cortezia nos compassados movimentos.

E depois d’estes pares, os dos mais senhores da Côrte: as duas Bocanegras—D. Maria, a camareira-mór, e D. Cecilia, a mais nova, D. Maria de Menezes, D. Violante de Lemos, já edosa, que fôra dama da Rainha D. Leonor, e, muito novinha, a seductora Catharina de Ataide, pensativa, um pouco alheada, cuidando no seu poeta, e escondendo talvez no seio aquelle retrato de que elle disse:

«Retrato vós não sois meu
Retrataram-nos mui mal,
Que a sereis meu natural
Foreis mofino como eu.»

Ella sentindo o contacto d’este retrato e suspeitando as perseguições que ameaçavam o original, o moço Luiz de Camões, é possivel que errasse os passos da pavana. Errava-os decerto, porém, com tanta graça, que era um regalo dos olhos. Assim o sentiam todos, desde os Condes de Portalegre, da Castanheira, da Vidigueira, e D. Affonso de Portugal, filho do Vimioso, e D. Francisco de Mello, filho do Marquez de Ferreira e muitos mais, até aos bobos e graciosos de El-Rei, que entre guinchos, dichotes e chufas que atiravam a granel sobre as cabeças mais gradas, não deixavam de celebrar a seu modo as bellezas femininas.

Eram esses bufões D. Fernando Roxas—marmanjo-mór, o Panasco, preto creoulo, cujos ditos eram famosos, e eram D. Felix e D. Briando.

«Os truhões chocarreiros com guitarras
Que aplazen aos reis, aos principes, aos infantes.»