Ao passo que o commercio da malagueta perde a sua importancia relativamente a Portugal, perde-a egualmente de um modo absoluto. A droga, outr'ora tão conhecida, foi pouco a pouco caindo em desuso; já porque as suas propriedades medicinaes ou aromaticas haviam sido exageradas, e se foram reduzindo ao seu verdadeiro valor; já porque a crescente facilidade de communicações fez affluir aos centros de consumo outras substancias vegetaes das diversas partes do globo, de eguaes ou superiores qualidades. Entre os negros continuou, e continua ainda, a ser usada como medicina e condimento estimulante. Ainda no seculo passado e principio do corrente a predilecção dos negros por aquelle adubo dava alguma actividade ao commercio da malagueta, pois que se vendia facilmente na America aonde estava accumulada uma grande população de escravos. É o que succedia, por exemplo, na provincia da Bahia, principalmente abastecida de escravos pela região de Benin e circumvisinhas, habituados á comida feita com azeite de palma e adubada com as substancias vegetaes aromaticas da sua terra natal. Hoje porém, que o trafico da escravatura está mui limitado, este consumo deve ter diminuido, se não cessado inteiramente. Entre os povos civilisados o emprego da malagueta é modernamente pouco consideravel. No entanto dos portos das costas da Malagueta, do Marfim e do Ouro, ainda se embarca alguma para Inglaterra, França, Hollanda, Estados Unidos e outros destinos. É empregada na preparação de medicamentos para os animaes, raras vezes usada como condimento, servindo principalmente para dar um gosto forte a alguns cordeaes[[99]].[46]
Como se vê tem decaido muito da sua antiga nomeada a celebrada droga da edade média: tão celebrada, que as suas suppostas excellencias e o mysterio da sua origem lhe haviam conquistado o nome de semente do parayso.
V
Conclusões
É facil agora, resumindo o que levamos dito, definir em breves palavras, qual foi a influencia das viagens portuguezas sobre o conhecimento d'aquella notavel planta, e sobre o trafico commercial a que deu logar.
Vimos nas paginas precedentes, que a malagueta é a semente de uma especie vegetal, o Amomum Granum paradisi, localisada em uma vasta zona da Africa equatorial, que se estende das praias do Atlantico até a um limite oriental ainda pouco definido. A densa população de raça negra d'aquella região, conheceu sem duvida as suas propriedades, e empregou-a desde épocas muito remotas. Ficou porém ignorada dos povos da Europa, que só em um periodo retalivamente recente, tiveram noticia das terras, hoje geralmente designadas com o nome de Sudan.
Á subita e singular expansão da raça arabe, que se seguiu ao estabelecimento da religião mahometana, se prendem os successos historicos que abriram ao commercio europeu aquellas uberrimas terras. As invasões arabes na Africa septentrional, repellindo uma parte da população berbére, que se não quiz submetter ao dominio dos sectarios do Islam, determinaram a sua migração para o interior, lançando-a sobre a terra dos negros, com os quaes já antes tinham communicações, porém menos seguidas e frequentes. Não tardaram os arabes em trilhar o mesmo caminho, internando-se no sertão e pondo-se tambem em contacto com a terra dos negros, o Belad es-Sudan. Estes dois povos, affeitos á vida nómada, eram eminentemente proprios a precorrer, em longas e penosas viagens, os desvios de areia movediça, ou de rocha escalvada e sáfara do Sahará. Estabeleceu-se assim o trafico das caravanas, travando relações commerciaes entre os portos do Mediterraneo, e as ferteis regiões do Sudan. A Alexandria, a Tripoli e aos portos do Gharb affluiram os escravos, o ouro, o zibetto, a malagueta e outras mercadorias de Melli, de Kukia, ou de Timbuktu. Aos navegadores italianos, entre os quaes sobrelevaram os venezianos, que, durante seculos, tiveram em suas mãos o commercio do Mediterraneo, se deve sem duvida a introducção na Europa d'essas mercadorias, e entre ellas da malagueta. Esta conjectura é confirmada pelo estudo feito nas paginas precedentes. A primeira menção da droga, encontra-se,[47] como vimos, em um livro italiano: depois abundam as noticias em livros egualmente publicados em Italia, e as referencias á introdução pelos portos da Italia ou do meio-dia da França. Se bem as menções, de que tive conhecimento e que citei, sejam do seculo XIII e seguintes, tudo nos leva a crer que fosse conhecida no seculo XII ou mesmo XI, pois já então havia relações com o Sudan. Como vimos, os italianos começaram desde logo a usar simultaneamente de duas designações: a de malagueta ou melegeta, provavelmente de origem africana: a de grana paradisi de invenção européa, e que resume em si duas noções, a da excellencia da droga, e a da incerteza da sua patria.
De feito os italianos colheram dos mercadores africanos poucas e vagas noticias sobre as terras centraes da Africa e as suas producções. E é natural que assim fosse: mais occupados de interesses commerciaes, que de investigações scientificas, contentavam-se com fazer permutações vantajosas, sem inquirir meudamente a natureza e origem das drogas. De mais, os berbéres semi-selvagens, e os arabes, na generalidade pouco mais cultos, mal poderiam esclarecel-os sobre productos, cuja origem elles proprios talvez ignorassem, havendo-os recebido da mão dos negros. Continuaram por muito tempo as coisas n'este estado: conhecida a droga e louvada, mais ainda do que rasoavelmente o mereciam as suas qualidades, ignorada a sua procedencia vegetal e geographica.
Corria o XV seculo quando os portuguezes dobraram o cabo do Bojador. Transposta esta temerosa meta das anteriores navegações, alongaram-se uns após outros e á porfia pela costa do Sahará, devassando os segredos do mar tenebroso, e delineando nas cartas os contornos do grande continente africano. Attingiram emfim a foz do Senegal e penetraram pelo occidente na terra dos negros, aonde os arabes haviam chegado pelo oriente e pelo centro. Costeando as praias da Guiné, e penetrando nas suas bahias e enseadas, subindo o curso do Senegal e do Gambia, explorando os vastos estuarios do rio de Cacheo, ou do rio de Geba, os portuguezes familiarisaram-se rapidamente com as principaes producções das novas terras. Nenhuma substancia vegetal attraiu mais as attenções do que a malagueta. O exame detido, que fizemos dos documentos contemporaneos, mostrou-nos o alvoroço com que foi acolhido o encontro da celebre especiaria, e o rapido incremento tomado pelo seu commercio, dando o nome a uma vasta região. Mostrou-nos tambem, o que mais nos interessa, como os portuguezes observaram a planta, até então desconhecida dos povos da Europa. É certo que não encontramos nos seus escriptos descripções acuradas e scientificas, nem o podiamos esperar: mas patenteiam-nos um conhecimento exacto da planta, que distinguiram bem das que produzem a pimenta de rabo, e a pimenta de Guiné. Noções mais perfeitas e rigorosas sobre a estructura da especie vegetal, não as havia então, nem as houve muito tempo[48] depois, e só as encontramos nos trabalhos dos botanicos do fim do seculo passado ou do principio d'este, que citámos nas paginas precedentes. Ao passo que os portuguezes observavam pela primeira vez a planta, determinavam tambem os confins da sua habitação, descobrindo essas terras mysteriosas, até então entrevistas apenas através das obscuras e incompletas relações dos arabes. De feito os limites norte e sul da parte occidental da área habitada por aquella especie foram bem conhecidos dos portuguezes: emquanto aos limites orientaes, se então permaneceram ignorados, ainda hoje estão pouco definidos. A impenetravel Africa não revelou por emquanto todos os seus segredos, não obstante os esforços de muitos exploradores, e o sacrificio de muitos martyres da sciencia, victimas das inclemencias do seu clima ou da crueza dos seus habitantes.
O descobrimento da malagueta e outros productos da Africa equatorial, além de ter interesse puramente botanico, resultante da observação de novas fórmas vegetaes, assignala uma época notavel na historia commercial do mundo. Os portuguezes abrindo a esses productos o caminho do Atlantico, vibram o primeiro golpe ao trafico dos arabes, e á prosperidade das cidades maritimas da Italia. Desviando algumas mercadorias dos negros das cidades de Djenni ou de Timbuktu, encetam a lucta com os arabes que se ha de proseguir na Africa oriental, e na peninsula Indo-gangetica, estendendo-se até Malaca, ilhas Molucas e China. Lucta que terminou pela victoria dos portuguezes sobre os arabes o os italianos; pela victoria do Atlantico sobre o Mediterraneo. O grande movimento commercial do Oriente, abandonou durante tres seculos o mar interior, para seguir o caminho apontado pelos navegadores de Portugal dobrando o cabo de Boa Esperança. Para que nos nossos dias o trato do Oriente voltasse á antiga via do Mar Vermelho, foi necessario que a industria moderna levasse a cabo um intento collossal, perante o qual haviam recuado os monarchas egypcios, e rasgasse a estreita faxa de terra que ligava os continentes africano e asiatico.