[[58]] Assim Pereira suppõe que o cardamomo conhecido na Abyssinia com o nome de Korarima é identico ao Amomum angustifolium Sonnerat, de Madagascar, e Hanbury (Pharm. Journ. 1872) considera um e outro identicos ao A. Danielli Hooker fil.

[[59]] O livro de Pegolloti, já muitas vezes citado, dá interessantes noticias sobre o commercio com o Oriente. Pode-se consultar tambem um curioso capitulo de João de Barros (Asia, dec. I, liv. VIII, cap. I), do qual se vê quanto eram extensas e exactas as suas informações sobre o modo porque se fazia o trafico das especiarias, antes de os nossos haverem dobrado o cabo da Boa Esperança; e egualmente o bem conhecido (Tratado dos diversos e desvairados caminhos, etc.) de Antonio Galvão.

[[60]] Sobre a supposta situação do parayso e a sua vegetação, póde ler-se a relação de Fr. João de Marignolli, e as eruditas notas de Yule (Cathay and the way, etc., pp. 360 e seguintes). Veja-se tambem uma carta de Letronne inserida na obra de Humboldt (Hist. de la géographie du nouveau continent, III p. 118). N'esta mesma obra se encontram expostas e discutidas as curiosas opiniões de Christovão Colombo sobre a proximidade em que deviam estar as novas terras por elle descobertas, do parayso terreal (Hist. etc. III, p. 111). Emquanto á influencia do parayso sobre a producção das especiarias ou substancias aromaticas, diz-nos Maçudi, escriptor arabe do X seculo, que Adão saíu do parayso coberto de folhas, e que estas depois de seccas, sendo espalhadas pelo vento sobre a India, deram origem a todos os aromas d'aquella região. (Les prairies d'or, etc. trad. de B. de Meynard et P. de Courteille. I. p. 60). O prudente arabe accrescenta no entanto (Deus sabe melhor a verdade). É curiosa a aproximação entre esta singular asserção e outra muito semelhante que encontramos nas obras de Santo Athanasio, o qual no dialogo Quaestiones ad Anthiocum (Opera, etc., n p. 279. Parisiis 1698), diz que a abundancia de substancias aromaticas nas regiões orientaes ou Indicas, é devida á proximidade do parayso, pois o vento que d'ali sopra póde tornar fragrantes e aromaticas as arvores das terras visinhas «sic fragrantia quae ex paradyso ventorum afflatu exit, arbores locorum illorum viciniores fragrantes efficit.» D'estas e de outras opiniões semelhantes resultou o nome de grana paradysi, dado, como vimos, á malagueta.

[[61]] O godo Alarico exigia da cidade de Roma para levantar o cerco, um resgate no qual figurava ao lado de avultada quantia de ouro e prata, uma porção relativamente pequena de pimenta. Constantino offerecia ao papa S. Silvestre vasos de ouro cravejados de pedrarias contendo quantidades minimas de perfumes e especiarias. Nos thesouros de Chosroes II, rei da Persia, mencionava-se a existencia da camphora, do almiscar e do sandalo. Muitos outros exemplos, que seria facil accumular, provam quanto eram considerados estes productos de afastadas regiões.

[[62]] Ao periodo de grande expansão que teve o christianismo no oriente, e particularmente na Tartaria e na China nos fins do seculo XIII e começo do seguinte, succede uma rapida decadencia, durante a qual quasi se apagou a sua memoria. Quando no XVI seculo os Jesuitas penetraram na India e na China, e tão cuidadosamente buscaram os vestigios dos christãos de S. Thomé, ou tiveram pouca noticia, ou intencionalmente callaram os grandes serviços feitos pelos Dominicanos, e sobretudo pelos Franciscanos, que ali os haviam precedido, e aos quaes só mais tarde se fez completa justiça. Veja-se Huc (Le christianisme en Chine, etc., I, p. 94 e seguintes) e tambem o livro já tantas vezes citado de Yule (Cathay and the way, etc).

[[63]] Quando o infante D. Pedro esteve em Veneza, foi-lhe ali offerecido um exemplar do livro de Marco Polo; o manuscripto original, como suppoz Ribeiro dos Santos (Mem. de litt. portugueza, VIII, p. 276, 2.ª ed.), ou, o que é mais provavel, uma copia authentica. Valentim Fernandes, no prefacio á traducção portugueza que depois fez, menciona esta circumstancia. Ramusio dá a mesma indicação (Discorso sopra la prima et secunda lettera di Andrea Corsali.-Delle nav. I. p. 176 v.º, Venetia 1563), e refere-se á influencia que o livro teve em Portugal «e che'l detto libro dapoi tradotto nella loro lingua fu gran causa che tutti quelli serenissimi Re s'infiammassero a voler far scoprir l'India orientale, e sopra tutti il Ré Don Giovanni.» Por esta, ou por outra copia, se fez desde logo uma traducção portugueza, pois entre os livros de uso d'el-rei D. Duarte, figura Marco Paulo, latim e linguagem em um volume (Provas da Hist. Geneal, etc. I. p. 844). Annos depois fez Valentim Fernandes a sua traducção, que imprimiu em Lisboa em 1502, obra muito rara, da qual a Bibliotheca nacional de Lisboa possue um exemplar.

[[64]] A relação da viagem do Nicolo di Conti, foi, por ordem do papa Eugenio IV, dictada ao seu secretario Poggio Bracciolini e por este escripta em latim. Foi depois vertida em portuguez por Valentim Fernandes e publicada juntamente com a obra de Marco Polo, com o titulo Ho livro de Nycolao Veneto. Quando Ramusio a quiz inserir na sua collecção não pôde encontrar o original latino, e teve de recorrer á versão portugueza, bastante defeituosa. (Dell. nav. etc. p. 338-1563.) Depois porém se publicou a relação em latim juntamente com outras obras de Poggio (De varietate fortunæ libri quatuor-1723) e por esta fez o sr. Major a traducção ingleza inserida no livro (India in the fifteenth century-Collec. Hakluyt). Sobre a influencia exercida pelo livro de Conti, veja-se Humboldt (Hist. de la géogr. du nouv. cont. I. p. 216).

[[65]] Primeiro mandou D. João II, Fr. Antonio de Lisboa, e Pero de Montarroyo, que por ignorarem a lingua arabica não proseguiram na sua viagem; depois Affonso de Paiva e Pero da Covilhan, e finalmente, em busca d'estes, dois judeos, Rabbi Abram de Beja, e um sapateiro de Lamego, chamado José. Veja-se o que diz Barros (Asia, dec. I, liv. III, cap. V) e sobretudo a relação muito mais detalhada dada pelo padre Francisco Alvares, na (Verdadeira informaçam das terras do Preste Joam).

[[66]] Diz João de Barros fallando da pimenta de rabo «a qual ElRei mandou a Frandes, mas não foi tida em tanta estima como a da India.» (Asia, dec. I, livr. III, cap. III.) Garcia de Rezende diz tambem da mesma pimenta «da qual foi logo mandado a Frandes.» (Chron. del Rey D. João II. pag. 43 verso. Lisboa).

[[67]] Sobre as informações que o infante tomava dos arabes veja-se o que diz João de Barros: «Donde assi na tomada de Cepta como as outras vezes que lá passou sempre inquiria dos mouros as cousas de dentro do sertão da terra» vindo a saber não só das terras dos Alarves e do Sahará mas tambem dos Azenegnes «que confinam com os negros de Jalof onde se começa a regiam de Guiné.» (Asia dec. I, livr. I, cap. II). Damiam de Goes falla tambem «das muitas informações que (o infante) cada dia tomava de mouros e azenégues practicos nas cousas de Africa» (Chron. do Princ. D. Joam. etc. cap. VII). Diogo Gomes conta que estando em Cantor, no Rio Gambia, ahi soubera de uma batalha travada entre dois regulos negros do interior, e que voltando ao reino, dera esta noticia ao infante, o qual lhe respondeu, que por uma carta de um mercador de Oran já fôra informado d'aquelle successo. Prova curiosissima de quanto eram extensas as relações que D. Henrique mantinha com o interior de Africa.