Senão vêde:
Uma noite de maio ia eu no caminho de ferro para Coimbra, tinha a um lado um brazileiro ainda novo, e do outro um homem alto e grosso, com o cabello e a barba já a branquearem-lhe; o brazileiro esperguiçava-se de quando em quando, tirava as botas, e para que o viesse acalentar, promettia dinheiro ao somno.
O meu outro companheiro encostava a cabeça, que abafara n'um bonet de pelle de lontra, ao estofo da carruagem, e erguia e descahia compassadamente as mãos sobre um dos joelhos.
«Está visto, disse-me o brazileiro, não posso dormir.
—Folgo muito, respondi eu, porque poderemos conversar. O sr. vae para Coimbra?
«Para o Porto. O sr. é de Coimbra?
—Sou estudante.
«Oh! estudante; dizem que os estudantes é muito má gente.
—Muito obrigado pelo elogio; mas olhe, são mais as vozes que as nozes.
«Que fazem muita troça. Até fizeram troça ao imperador do Brazil, é verdade? Pode dizer o que quizer, a mim não me importa o imperador, eu não gosto do imperador, ainda que é o primeiro sabio do mundo. Não sei se é, que eu não entendo d'estas cousas, sou negociante e ando a viajar para me divertir, tenho gasto muito dinheiro: agora é gastar. Mas viu o imperador gostou d'elle?