Um dos manuscriptos de que a illustrada senhora, benemerita das lettras portuguezas, se serviu habilitou-a a conhecer quaes foram as poesias, ou melhor, quaes os grupos de poesias, os mss. separados, que Sá de Miranda enviou, por tres vezes, ao principe D. João. Esse ms. é, demais, preciosissimo porque representa uma redacção primitiva, original, feita com cuidado e com o intuito da offerta. D'ahi, indubitavelmente, uma coordenação subordinada a certos principios e que denuncia a mão do proprio poeta. As edições, até então feitas, haviam-o sido sobre manuscriptos distribuidos a amigos e discipulos.

A ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, corrigindo rigorosamente aquelle ms. fundamental da sua edição, deu-lhe não o caracter de diplomatica, sim de normal. Esse codice vem representado no texto pelas tres primeiras partes, reproducção integral, livre de restaurações e renovações arbitrarias, mas emendada onde havia erros visiveis e inilludiveis e systematicamente orthographada, em harmonia com os principios do escriba, com alguma, pouca, pontuação, pouquissimos accentos e resolução de todas as abreviaturas. Acompanha a edição um extenso corpo de variantes.

Esplendido trabalho de erudição, o da ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, é ainda enriquecido com uma vida e commentario notabilissimos. Como estudo de profundo saber ficará considerado monumento perduravel e guia indispensavel para obras futuras.

A ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos e o sr. Theophilo Braga, apoiando-se na Vida, investigaram e esgotaram, por assim dizer, quanto a respeito de Sá de Miranda se pode escrever. Não que hajam aclarado todos os pontos duvidosos da obscura biographia do nobilissimo auctor das Cartas. Isso, todavia, é assumpto para futuras e demoradas investigações.

Comprehende-se, pois, que o presente trabalho não é positivamente novo. Tomando por base a Vida, aproveita todos os resultados adquiridos por os anteriores, comparando opiniões desencontradas e procurando projectar a mais intensa luz sobre a biographia e a obra do grande Sá de Miranda. Tudo documentado, tanto quanto possa ser, por citações das cartas e eclogas do poeta, pois que, das suas producções, as mais d'ellas respeitam sobre casos particulares que succederam na côrte em seu tempo.

O intuito primordial do presente estudo é tornar conhecida a vida d'esse vulto sympathico da nossa historia litteraria, mostrar a estreita relação que ha entre ella e a sua obra, e restituir, ante a geração actual, o poeta ao logar a que tem direito pela independencia do seu caracter, pela auctoridade indiscutivel que lhe dava esse mesmo caracter, e pelo alto valor de sua poesia, toda conceituosa e philosophica. Isto apenas desejava conseguir o auctor para poder justificar a si proprio a audaz tentativa que emprehende.

Lisboa, agosto de 1895.

Escreveu o mallogrado Pinheiro Chagas, referindo-se ao director espiritual e mestre dos lyricos do seculo XVI, ou da escola chamada classico-italiana, que—se Camões, como os Jeronymos de Belem, significa a resistencia do estylo nacional e da tradição nacional á Renascença classica, Sá de Miranda representa o enxerto da litteratura classica em um vigoroso rebento nacional. Nenhum outro juizo, como o do nosso grande historiador contemporaneo, poderia assignalar melhor o logar de Sá de Miranda no movimento litterario nacional portuguez. Cultor fervoroso da tradição portugueza em seus primeiros tempos de poetisação, o illustre solitario da Tapada, ao dedicar-se ao estudo e á imitativa dos classicos da antiguidade grega e romana, não quebrou, talvez porque o não quizesse fazer, os laços que o prendiam ao espirito que lhe guiara os primeiros passos.

Sá de Miranda, como nota o sr. Theophilo Braga, fez uma revolução profunda na poesia portugueza, foi a alma da boa litteratura e o poeta que mais propagou a tradição classica entre nós, no seculo XVI. Comtudo, o classicismo n'elle não passa de um enxerto, mera tentativa não sem valor, mas destituida de vida. E a sua gloria está toda, exactamente, em o que a sua obra tem de genuinamente portuguez. As suas Cartas, satyras admiraveis, são em todos os sentidos verdadeiras perolas da nossa litteratura.

É certo que o classicismo, a brilhante Renascença, auroreava já no horisonte do Portugal litterario. Encontrára mesmo alguns adeptos apaixonados, mas que, faltos de talento, lhe não tinham dado impulso. Se algumas tentativas houve antes de Sá de Miranda, tão fracas foram que não tiveram seguidores. Elle seu principal e verdadeiro propulsor.