Em sua educação primeira, Sá de Miranda recebeu necessariamente uns laivos de classicismo pelo estudo das obras dos poetas gregos e latinos. Nem de outro modo se poderia explicar a sua inclinação manifesta em esse sentido. A Vida dá conhecimento de que, em 1584, um fidalgo de Lamego, Gonçalo da Fonseca de Crasto, possuia um Homero com notas á margem feitas em grego pelo douto Sá. Prova de que Sá de Miranda recebeu uma educação classica.

Esclarecerá tudo, talvez, o saber-se que Sá de Miranda nasceu em Coimbra, que vem sendo de seculos o mais importante centro intellectual do paiz. Centro que tem inspirado a poesia desde Sá de Miranda até Garrett e, posteriormente, até João de Deus, Guerra Junqueiro, Anthero e Eugenio de Castro. Coimbra, a cidade das melancolicas margens do Mondego, a que as lagrimas de Ignez tornaram lendario e querido dos poetas, a Coimbra dos estudantes... Antiga e nobre cidade, como Sá de Miranda lhe chamou em uma das suas Cartas, a dirigida a Pero de Carvalho.

Da antiga e nobre cidade
Som natural, som amigo.

Cidade cuja belleza maravilhosa sempre amou e louvou com o carinho de filho amantissimo.

Cidade rica do santo
Corpo do seu rei primeiro
Que ainda vimos com espanto
Ha tam pouco, todo inteiro,
Dos annos que podem tanto.

A nobre e leal Coimbra.

Outro rei, tanto sem mal
Que lhe empeceu a bondade,
O quarto de Portugal,
Qual teve ele outra cidade
Tam constante e tam leal?

Do nascimento de Sá de Miranda affirma a Vida que o poeta viu a luz em o mesmo dia em que el Rey Dom Manoel tomou posse do governo destes Reynos. Sobre qual tenha sido esse dia levantou-se divergencia de opiniões. Uns pretenderam que fosse fixado a 24 de outubro de 1495, como o admittiu o sr. Theophilo Braga, em sua Historia dos Quinhentistas, livre da supposição de, pela logica dos factos, ser levado a crer que o poeta tivesse nascido muito antes d'esse anno. Outros escriptores attribuiram-lhe a data de 27 de outubro, para a qual se inclinaram a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos e Pinheiro Chagas.

A logica dos factos não mentiu ao sr. Theophilo Braga. Sá de Miranda viu a luz necessariamente muito antes do anno admittido geralmente. Demonstra-o, irrefutavelmente, um precioso documento recentemente encontrado, em a Torre do Tombo, pelo incansavel investigador e erudito escriptor, sr. dr. Sousa Viterbo:—nem mais nem menos do que a carta de legitimação do grande poeta, datada de 1490, em que apenas se faz referencia a Francisco, filho do conego Gonçalo Mendes, que, não resta duvida, é o nosso poeta. Ha pelo menos, portanto, a recuar uns cinco ou seis annos a data de seu nascimento, o que não deixa de ter importancia para a comprehensão da sua vida.

Da filiação de Sá de Miranda apenas se conhece o nome do pae, o conego Gonçalo Mendes de Sá, embora o sr. Theophilo Braga o diga filho de D. Filippa de Sá. Errada interpretação, como o apontou Camillo Castello Branco, da noticia-attribuida a D. Gonçalo Coutinho. A Vida é bem expressa dizendo que o poeta foy filho de Gonçalo Mendes de Sá e neto de João Gonçalves de Miranda, que viveo junto a Buarcos e de Dona Phelippa de Sá sua molher. Clarissimo, pois, que Sá de Miranda era neto, e não filho, de Dona Phelippa de Sá. Quem fosse a mãe, se plebea ou nobre, é mysterio que a alludida carta de legitimação vem desvendar.