Descendia, portanto, Sá de Miranda, da antiga geração dos Sás, geração que deu a Portugal muitos filhos illustres, cavalleiros, prelados e escriptores de renome e dos quaes um irmão do nosso poeta, Mem de Sá, é um nobilissimo exemplo. Mas, essa geração tambem legou ao mundo alguns scelerados de marca. Um dos proprios filhos de Sá de Miranda demonstrou exuberantemente quanta bilis corria entre o sangue generoso d'essa illustre familia.

A avó do nosso poeta. Dona Phelippa de Sá, era filha de Rodrigues de Sá, e neta de João Rodrigues de Sá, o primeiro que chamarão das Galés assas conhecido em tempo del Rey Dom João de boa memoria. Sá de Miranda estava assim aparentado com as mais nobres familias do paiz e mesmo com a illustre familia Colonna de Italia. Era-o, tambem, com a fidalguia de Hespanha. A origem hespanhola dos Mirandas explica, como quer o sr. Theophilo Braga, os versos em que o poeta se dá por parente do fidalgo asturiano Garcilaso de la Vega.

Os primeiros annos de sua vida, parece, Sá de Miranda passou-os nas poeticas margens do Mondego, em Buarcos, em casa de seu avô paterno João Gonçalves de Miranda. Deve ter estudado as primeiras letras de humanidades em Coimbra. São, porém, completamente desconhecidas as primeiras impressões de sua mocidade e nem se póde conjecturar ácerca dos seus primeiros professores e estudos.

Desconhecem-se, egualmente, quaes as relações em que estava a familia de Sá de Miranda para com o monarcha. Devem ter sido cordeaes, pois que a Vida affirma que o nosso poeta veiu para Lisboa estudar Leis em a Universidade, não que por inclinação que tivesse aquella maneira de vida mas obedecendo a seu pay que lha escolhera e, tambem, em obsequio ao gosto del Rey Dom João o Terceiro.

Em 1516 devia ter concluido a sua formatura. Isto se deprehende de, por essa epoca, já ser tratado por doutor. No Cancioneiro geral, colligido por Garcia de Resende, encontram-se varias glosas e cantigas de Sá de Miranda com a rubrica—Do Doutor Francisco de Saa, grosando esta cantigua de Jorge Manrrique.

Sá de Miranda seguiu os seus estudos com felices porgressos e sahio grande letrado. D'ahi, decerto, tendo um curso distincto, o ser escolhido para ficar em a Universidade, professando as disciplinas que frequentara. Pelo menos, a Vida affirma que o poeta tomou o grao de Doutor e leo varias cadeiras daquella faculdade.

Então, os poetas eram geralmente jurisconsultos, phenomeno este que hoje se dá como maravilha. Ferreira, que egualmente reunia as duas qualidades, á primeira vista incompativeis, de doutor e poeta, defendendo essa alliança, dizia:

Não fazem damno ás musas os doutores,
Antes ajuda a suas letras dão.

A passagem de Sá de Miranda pelo professorado da Universidade foi rapida. A Vida diz que o poeta, conhecendo os perigos que o uso desta sciencia tras consigo em materia de julgar, tanto que lhe faltou seu pay não só deixou de todo as escollas, mas engeitou os lugares do Desembargo, que por muitas vezes lhe forão offerecidos.

O doutor Francisco de Sáa tinha, certamente, alguns bens que lhe permittiam custear a vida embora modestamente, e, d'ahi, o desprezar os empregos da côrte. Caracter altivo e independente não queria ceder da sua liberdade. Assim, poude dedicar-se completamente ao estudo da Philosophia Moral e Estoyca a que sua natureza o inclinava, e em que se tornou consummado.