Pela familia illustre a que pertencia, pelas estreitas relações em que ella estaria com o paço real e pelas recommendações especiaes que traria, Sá de Miranda, ou, como era conhecido, Francisco de Sáa, encontrou um cordealissimo acolhimento no palacio do faustoso monarcha D. Manoel. No intervallo das lições, nos ocios que lhe deixava a sua applicação ao estudo, frequentava os serões da côrte portugueza, em pleno esplendor então que Portugal attingia as culminancias do poderio moral e material. Era a bandeira portugueza desfraldada por todo o mundo, os reinos caindo ao embate das armas do pequeno povo das costas atlanticas da peninsula hispanica, o nome de Portugal acatado com respeito, tanto que o Rei Venturoso sentiu os primeiros assomos da idêa avassalladora da monarchia universal.

A realeza procurava reunir em seu torno, em o palacio real, os espiritos mais cultos do paiz. Entoava-se como que um côro de louvôres, de canticos de alegria, em volta do feliz monarcha de um povo que tão extraordinarios paizes desvendára e dera á civilisaçao. E como poderia deixar de o ser, se a epopêa era maravilhosa. Andava-se em ethereo paraizo. Tudo era fausto, tudo gloria, tudo um sonho infindo como infindo o horisonte que o nauta persegue.

Notabilissimos os serões d'essa côrte faustosa que começava a effeminar-se na ociosidade da victoria e no goso das inexgotaveis riquezas conquistadas, e que, assim, preparava proximos desastres. A sua pompa e sumptuosidade excedia tudo quanto se poderia conceber. A imaginação mais viva e ardente luctaria por os descrever em todo o brilho. A sua fama foi em um crescendo continuo, passou as fronteiras e repercutiu-se lá fóra, até se tornar universal. Os não menos famosos da côrte pontificia de Leão X ficaram-lhe sempre áquem e muito.

O doutor Francisco de Sáa, elle proprio, tomou parte em os certamens poeticos realisados n'essa côrte esplendida. Ahi se encontrou em contacto com os homens notaveis da epoca, sobretudo poetas. Em a côrte se relacionou Sá de Miranda com o bucolista Bernardim Ribeiro a quem tomou amizade sincera e por quem sempre foi dedicado. De então datam, egualmente, as estreitas relações que manteve em toda a vida com o principe Dom João, filho de el rei D. Manuel, relações que se sustentaram atravez de todos os acontecimentos, pois que o mesmo D. João, quando já no throno, jámais deixou de patentear a sua estima ao poeta, de o proteger e de lhe apreciar as producções.

A estrella de maior brilho da côrte de D. Manuel era ao tempo ainda a tão formosa quanto esquiva D. Leonor de Mascarenhas, diz-se que dama da rainha D. Maria. Senhora de dotes e qualidades pouco vulgares, constituia ella o alvo das attenções dos mais galantes cavalleiros a par de inspirados poetas, como D. João de Menezes, Fernam da Silveira e outros. A espada que galhardamente lhes pendia do cinturão, emquanto trovavam á sua dama, e que matava o audaz rival, era, tambem, a lusa espada pelejadora pela patria e pela religião.

Em o Cancioneiro de Resende encontram-se muitas referencias a essa illustre senhora. A fidalguia porfiava em agradar-lhe, cercava-a de galanteios para lhe merecer os sorrisos. Não consta que ella se tenha rendido a qualquer d'elles. A tradição dá-a como um modelo de esquivança.

Mais tarde, quando a fumarada das primeiras fogueiras do Santo Officio ennegrecia o azul alegre e puro do nosso admiravel ceo, a suspeita e o temor invadiam as consciencias, Sá de Miranda relanceava os olhos pela estrada do seu passado, revia os tempos da sua mocidade e recordava-se com profundissima saudade d'esses serões. Não que ao poeta seduzisse o fausto, mas a fina e intelligente companhia que n'elles havia, n'aquelles serões de subtis e delicados motes.

Os momos, os seraos de Portugal,
Tam falados no mundo, onde são idos?
E as graças temperadas do seu sal?
Dos motes o primor, e altos sentidos?
Ums ditos delicados cortesãos,
Que é d'eles? Quem lhes dá sómente ouvidos?

E com que energia fustigava a decadencia miseravel que levára a essa desolação!

Lançou-nos a perder engenhos mil
E mil este interesse que haja mal,
Que tudo o mais fez vil, sendo ele vil!