Os ultimos trovadores do Cancioneiro de Resende, Sá de Miranda ainda os conheceu ou ouviu as suas poesias. Em começo de frequentar a côrte repercutiam-se n'ella os ultimos echos dos cantares do mimoso D. João de Menezes, um dos mais afamados d'aquelle tempo, e que devia a sua nomeada ao chiste, á graça arrebatadora, á facilidade com que glosava os motes apresentados pelas damas do paço. Cavalheiro amabilissimo, eximio na arte do galanteio, D. João de Menezes fizera-se adorado. As suas canções, foram ouvidas e estimadas ainda muito tempo após a sua morte, revestindo a sua memoria lendaria uma aureola de consagração.
Particularmente bem acceito, amimado mesmo, o dr. Francisco de Sá de Miranda, espirito engenhoso, talento a desabrochar, deixou-se influenciar pela maneira e pela fórma das poesias dos ultimos trovadores da côrte manuelina. Foi em sua corrente, poetando como elles, tomando-os como modelos e seguindo-os na esteira. Sobretudo, as poesias de D. João de Menezes mereceram-lhe especial consideração e estudo.
D'esse tempo a maior parte dos seus vilancetes e cantigas. Composições faceis, de estructura simples e superficiaes, algumas d'ellas são, entretanto, como as aprecia a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, perolas de raro valor e flores de delicioso perfume. Sá de Miranda cultivou, assim, n'esse primeiro periodo de seu labor, a tradição da chamada escola velha. Pode-se affirmar, sem receio de contradicta, que o fez com notoriedade. Muitas das suas poesias de então apparecem no Cancioneiro geral.
Tem-se levantado grande celeuma sobre um pretendido sentimento de acerbo desgosto, de profunda tristeza, manifestado n'essas primeiras composições poeticas, desgosto a que se pretende ligar uns infelizes amores por uma tal Celia. Que estes amores sejam ou não ficção, é ponto hoje controverso e sel-o-ha, talvez, por muito tempo. A verdade é que a taciturnidade do nosso poeta não era extemporanea. Vinha do temperamento proprio de Sá de Miranda, um pouco do caracter ethnico da região de sua naturalidade e a evidencial-o está a inclinação philosophica de toda a sua vida.
É provavel que o moço dr. Francisco de Sá se não esquivasse a qualquer intriga amorosa em palacio. No verdor dos annos, em uma côrte a corromper-se, com as facilidades que de per si se proporcionavam, como poderia deixar de se prender pelo donaire de qualquer gentil dama? Envolver-se-hia em algum caso mais serio e escandaloso, e d'ahi o dizer-se, posteriormente, que a sua viagem á Italia tivera por causas primordiaes questões na côrte.
A Vida sustenta que, levantando-lhe a philosophia o pensamento ao desprezo de todas as cousas de cá quis peregrinar pollo mundo, porque no repouso a que determinava recolher-se o não inquietassem as novas do que não vira. Pode-se d'aqui deprehender que esse
Homem de um só parecer,
de um só rosto, e d'ũa fé,
d'antes quebrar que torcer,
começava a profundar a base falsa da sociedade em que vivia? Será dado inferir-se que era a decadencia que elle antevia imminente, que o levava a despresar os folguedos e a aborrecer as cousas de cá? Talvez.
Sá de Miranda era um espirito observador e comparativo. De temperamento taciturno, grave na pessoa, melancolico na apparencia, mas facil e humano na conversação, engraçado nella com bom tom de falla, e menos parco em fallar que em rir, fatigar-se-hia, por vezes, dos passatempos frivolos da côrte estouvada e procuraria em o estudo um refugio para retemperar a sua actividade. De mais, illustrado e laborioso, não pensaria apenas em folgar e poetar. Applicava as suas faculdades intellectuaes, analysava e produzia. Ninguem melhor do que elle conheceria o trabalho espiritual de sua época.
O movimento litterario tornara-se essencialmente palaciano no reinado do feliz D. Manoel. Natural attracção da realeza esplendorosa. Tambem, o soberano venturoso iniciara a politica de unidade monarchica com as celebradas Ordenações Manuelinas, cujo pensamento capital, traduzido pela reforma dos foros, era a concentração, em o poder real, dos privilegios locaes e a extincção das antigas tradições feudaes.