A poesia cessára, portanto, de ser puramente popular, nacional, de se inspirar directamente nos actos da vida do povo, para se converter em graciosa e cortezã. Não que aquella desapparecesse de todo, pois, felizmente, não deixara de se manifestar a reação. As formas palacianas tinham conquistado, porém, o predominio sobre as classes mais illustradas.
Admiravel e prestadia manifestação poetica, o trovadorismo acabara por se estagnar nas superficialidades da côrte, ao contacto dos costumes de uma nobreza propensa á ociosidade e á fatuidade pelo saciamento do oiro. Reduzira-se a um lyrismo artificioso e destituido de sentimento pela carencia absoluta de motivos emotivos, de actos inspiradores. O seu fim era, sobretudo, o bom dito, a impressão sobre os presentes, impressão, está bem de ver, muito pessoal e passageira.
E decaira tanto o trovadorismo que se pozera servilmente a imitar os hespanhoes e até a adoptar a lingua d'aquelles para as composições poeticas. Precaria, então, a existencia da portugueza, nobre e bella como nenhuma outra. O melhor testemunho d'essa decadencia encontra-se no Cancioneiro geral de Resende, archivo da fina flor da poesia palaciana do tempo, como ironicamente lhe chamou um conhecido escriptor.
Essa poesia, falta de ideal, de um motivo emocionante, sem uma unica das qualidades que constituem a obra d'arte, recorria aos artificios da forma, a um exagerado abuso de allegorias metaphysicas para se fazer valer. Carecendo de sentimento verdadeiro, pedia vida á casuistica amorosa que apresentava ao mais elevado refinamento.
Privilegio das classes elevadas, como o aponta o sr. Theophilo Braga, ella servia de passatempo nos ocios da guerra, era a expressão da galanteria com as damas e o meio de dar celebridade aos casos anedocticos que se passavam detraz dos pannos de Arras. Mero entretenimento, como tal, descambava quasi sempre para a banalidade. Futilissimos, assim, os themas de inspiração, umas grandes barbas, um pelote de peludo, um macho ruço e quejandas cousas.
Felizmente, a Renascença abrira novos horizontes e os seus fulgurantes clarões vinham já alumiando até Portugal. Para isso concorria, sem duvida, as estreitas relações em que se estava com a Italia e o acolhimento que entre nós encontravam os que d'ahi chegavam. Ninguem melhor do que Oliveira Martins, em sua Historia de Portugal, assignala o ponto de partida d'esse movimento revivificador, dizendo que os filhos de el-rei D. João I, abrindo as portas da nação á cultura da Renascença, chamando sabios, viajando, fundando bibliothecas, tinham lançado á dura terra do velho Portugal as sementes italianas.
A transformação, porém, não se operou de momento, em um convulsionismo rapido. Seguiu lenta, infiltrando-se pouco a pouco, tanto que, como o sustenta a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, na litteratura como nas artes e nas sciencias, os vestigios da influencia italiana foram quasi insensiveis até 1520, vesperas da partida de Sá de Miranda para o estrangeiro. Mas, nem o proprio creador do theatro nacional, o talentoso, embora inculto, Gil Vicente, tão aferrado á escola da tradição nacional, escapa á sua influencia. Manifesta-o a ironia de suas farças, aquella mordacidade que nada poupava e ia até desrespeitar as crenças religiosas, ironia que annunciava o proximo advento da Reforma, o despertar da razão humana escravisada pela esteril escolastica.
Lá fóra rompera já acirrada a lucta entre as duas escolas litterarias. Uma procurava manter intransigentemente as tradições da edade media e da poesia nacional e a outra ia inspirar-se em os monumentos da litteratura classica, tendendo a imital-os, se não seguil-os servilmente. Havia-se ferido os primeiros combates em forma entre os partidarios de uma e os sectarios da outra, combates que tinham tido uma natural repercussão em nosso paiz. São os eruditos conjurando-se contra Gil Vicente, cuja originalidade contestam, e considerando as suas obras de rasteiras e ordinarias. Com que fino tacto epigrammatico, porém, o auctor de Ignez Pereira os apodou de homens de bom saber! De bom saber!...
Sá de Miranda, de uma instrucção variadissima, innegavelmente conhecia desde a infancia os livros dos escriptores gregos e latinos. A Vida offerece a preciosissima noticia de que elle soube tanto da lingoa grega, que lia a Homero nella, e anotava de sua mão em grego tambem. Devia ter seguido com interesse a evolução da poesia italiana que a tão grande altura se estava levantando.
Approximando as producções dos poetas italianos das dos seus contemporaneos, Sá de Miranda media bem a inferioridade da nossa poesia. Comprehendia e avaliava a necessidade de a vitalisar egualando-a com a grandiosidade epica que estava attingindo o espirito guerreiro dos portuguezes. Tomou-o o desejo de exaltar o pensamento revestindo-o de novas e vigorosas formas. Em seu animo de patriota, concebeu a vontade ardente de fazer vibrar a mentalidade nacional com scintillações desusadas a par dos coriscantes raios despedidos pelas espadas vibradas por braços energicos.