Um vilancete brando, ou seja um chiste,
Letras ás invençõis, motes ás damas,
Ũa pregunta escura, esparsa triste!
Tudo bom! quem o nega? mas porque,
Se alguem descobre mais, se lhe resiste?
A renovação litteraria e artistica, importante e fecunda de resultados immediatos, que se operava em Italia, devia attrahir o sonhador poeta como o luzir do dia chama a passarada chilreante. Sá de Miranda, votando ao desprezo as cousas de cà, sentir-se hia tomado de um vehemente desejo de ir verificar de perto, avaliar de visu, por assim dizer, a intensidade d'esse grande movimento intellectual que começava a ter echo em toda a Europa, visitar esse meio que a tuba da Fama dizia o mais culto.
Estamos, assim, de accordo com a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos em que a viagem de Sá de Miranda á Italia não teve origem primordial em questões da côrte. Não. Tudo é porque o seu motor foi—a anciedade espiritual do poeta, o desejo de estudar a arte, de pôr em concordancia a elevação do pensamento com a heroicidade das acções portuguezas que o expatriou. Altamente patriotico, pois, e proprio do seu nobre caracter, o emprehendimento que se propozera o poeta.
Sá de Miranda demorou-se lá por fóra bastantes annos. Viagem larga e que lhe permittiu, visitando primeiro os mais celebres lugares de Espanha, percorrer com vagar e curiosidade Roma, Veneza, Napoles, Milão, Florença e o milhor de Cicilia. Verdadeira missão de estudo a que não escaparam as cidades então mais em evidencia e onde se encontravam os homens mais illustres da Renascença.
Vi Roma, vi Veneza, vi Milão
Em tempo de Espanhoes e de Franceses,
Os jardins de Valença de Aragão
Em que o amor vive e reina, onde florece,
Por onde tantas rebuçadas vão.
A saída do poeta para a Italia deve ter-se effectuado por 1521 e o regresso ao reino por 1526. É o que se conclue do verso
Em tempo de Espanhoes e de Franceses
Era a epoca em que o imperador Carlos V, de Hespanha, andava em guerra com Francisco I, de França, por este haver, tambem, aspirado ao throno da Allemanha. Exactamente n'esse anno de 1521 encetou Carlos V as hostilidades contra o rei de França, abrindo o primeiro periodo de guerra que teve por campo de batalha, sobretudo, a Italia, e que veiu a terminar, depois da batalha de Pavia (1525), em que Francisco I caiu prisioneiro dos hespanhoes, pelo tratado de Madrid que deixou a peninsula italica em poder dos ultimos (1526).
A viagem de Sá de Miranda deve, portanto, ser collocada entre os annos de 1521 e 1526. Esta data está completamente de accordo com a indicação de seus proprios versos, além de que todos os factos a que elles se referem a confirmam. Quando o poeta se tornou ao reino, já avia muito que reynava el-rei D. João III.
A peninsula italica encontrava-se, então, em plena febre de renascimento. Seus povos, escravisados successivamente por allemães, francezes e hespanhoes, sem forças para se libertarem dos dominadores, procuravam em o engrandecimento do passado o esquecimento das desgraças que soffriam, da decadencia do presente. A imagem de Virgilio, cantor das glorias nacionaes, apparecia-lhes como um protesto patriotico e, o que era mais, como um balsamo fortificante das energias abatidas.