As recordações dos tempos idos incutiam os estimulos para a lucta que a Italia sustentava. Por isso principiou ali a Renascença bafejada pelas lembranças sempre vivas de uma tradição patriotica jamais extincta, na phrase elegante e justa do sr. Simões Dias. E foi assim que ella conseguiu engrandecer-se como nunca, levantar-se á maior altura da arte, em concepções grandiosas, com artistas que attingiram a um renome perduravel.
Em meio de uma actividade assombrosa, a Italia caminhava para conquistar, entre as nações neo-selticas, a posição intellectual dominante que posteriormente gosou. Palmo a palmo, alcançava um triumpho tão glorioso quanto indelevel. Aos genios de Dante, Petrarcha e Boccacio, iniciadores d'esse movimento extraordinario e inegualavel, em o periodo em que as trovas provençaes ainda eram o divertimento das classes patricias, e de Leonardo de Vinci, succedera uma geração toda illustre. Ao tempo de Sá de Miranda, a Italia era o campo de gloria de Ariosto, Sanazarro, Bembo, Tasso, Machiavello, Vittoria Colonna, Raphael, Miguel Angelo, etc.
Em seus versos, Sá de Miranda refere-se, por vezes, aos diversos homens illustres dessa vicejante Italia. O conhecimento que d'elles mostra auctorisa a affirmativa de que tratou pessoalmente com os mesmos. A posição que occupava na côrte portugueza, o prestigio do nome da familia a que pertencia, para mais ainda aparentada com a opulenta casa Colonna por seu avô paterno João Rodrigues de Sá, pol-o em estreitas relações com homens notaveis como Giovanni Ruccellai, Lattanzio Tolommei e outros. Ao excellente lyrico e notavel bucolico da Arcadia chama o bom velho Sanazarro.
Floresciam, então, com o mais vivo esplendor, os talentos mais insignes. De um a outro extremo da formosa peninsula, o genio irrompia audaz e scintillante. A Italia foi, d'esta sorte, um verdadeiro deslumbramento para Sá de Miranda. Affirma a Vida que o poeta viu Roma, Veneza, Napoles, Milão e Florença, os centros d'essa admiravel elaboração intellectual, com vagar e curiosidade. Assim deve ter sido.
Não houve homem notavel que o nosso poeta não conhecesse ou de que não indagasse o merito artistico. Em Roma, encontraria o celebre cardeal Bembo, intimo do magnificente Leão X, imitador acerrimo de Cicero a ponto de aconselhar os seus amigos a não lerem as epistolas de S. Paulo para não macularem o estylo e que, ao celebrar o sacrificio da missa, recitava odes de Anacreonte, em vez das orações do ritual. Ao visitar Veneza, a bella rainha do Adriatico, ouviria fallar do implacavel poeta satyrico Aretino, verdadeira lingua viperina, que vendia publicamente os seus terriveis epigrammas a quem mais lhe dava.
Sá de Miranda cita, outrosim, Ariosto, em pleno florescimento na côrte de Ferrara, e que introduzira em a poesia o sensualismo elegante e a phantasia pura. Machiavello, o famoso secretario da republica de Florença, preparava tres seculos de acerrima controversia com o seu não menos celebre livro Principe, apologia emphatica do poder absoluto. Era, ainda, Trissino, grammatico e lyrico, mais conhecido pela tragedia Sophonisba, escripta á maneira grega; o cardeal Sadoleto, esse outro secretario de Leão X, insigne latinista e poeta lyrico; Guicciardini, jurisconsulto notavel e Julio Scaligero, hellenista de fama. Seria necessario quasi um volume para enumerar todas as individualidades d'essa geração illustre.
As relações de Sá de Miranda com os artistas e eruditos italianos abriram novos horisontes ao seu espirito e este insensivelmente foi recebendo a direcção que devia dar ao genio da Renascença em Portugal. Mas não era apenas o contacto com esses homens de talento, sim, tambem, a observação d'essas maravilhosas obras de arte disseminadas por toda a Italia, em palacios, monumentos e templos grandiosos, as incomparaveis telas de Raphael, espirito todo luz, harmonia e amor, a branca visão do Thabor, como lhe chamou Henri Martin, e de Miguel Angelo, o austero e solitario pintor, o anjo das trevas divinas. Era a acquisição dos mais bellos trabalhos da brilhantissima litteratura italiana, que relia e estudava com sofreguidão e cujas excellencias saboreava com dôce embriaguez, mais tarde, em sua quinta da Tapada, longe do bulicio da côrte.
Liamos os Assolanos
De Bembo, engenho tam raro
Nestes derradeiros anos
Os pastores italianos
Do bom velho Sanazaro.
Sá de Miranda teve egualmente occasião de vêr em scena a comedia classica em prosa, moldada pela da antiguidade. Observador como era, não lhe escapou a importancia d'esse novo germen litterario e analysou-o cuidadosamente para o introduzir e adaptar em sua patria. A par da comedia manifestava-se uma outra especie nova, o dilettantismo musical. Para mostrar o agrado com que o veria o poeta, bastará dizer que elle tangia violas darco e era dado á musica.
Nos palacios, outros tantos fócos de Renascença, discutiam-se todas as questões de arte e de litteratura. As festas n'elles celebradas não eram puramente de distracção como as da côrte portugueza, mas essencialmente productivas. Em casa do marquez de Pescara reuniam-se os talentos mais em evidencia. Comprehende-se bem o que seriam os serãos ali realisados.