Sá de Miranda, de natural perscrutador, não deixaria, certamente, de se interessar pelas questões politicas e religiosas, que tambem agitavam a esse tempo a Italia e que constituiam os grandes factos da Reforma attingindo o seu extremo, na Dieta de Spira, com a proclamação da liberdade de consciencia. Provavelmente, como catholico devotado e ardente, lhe não seria em principio sympathica a Reforma, mas nem por isso escapou á influencia d'ella, nem deixou de votar a mais profunda repugnancia ao excesso de intolerantismo da reacção.
Intelligencia altamente lucida, Sá de Miranda sentiu-se tomado de uma intensa fascinação por esse extraordinario movimento intellectual que tinha a felicidade de observar de perto, de apreciar pessoalmente, tratando com os seus principaes corypheus. Como o seu coração de patriota, ardente, não pulsaria actuado por uma forte vontade de tirar a sua patria do profundo marasmo a que decaira para a levantar á maior altura do culto da arte! Avalia-se e dá-se razão ao enthusiasmo com que se tornou a Portugal.
Aqueles cantares finos,
A que liricos disserão
Os Gregos e os Latinos,
Digão me donde os houverão
Salvo dos livros divinos?
Quantos que d'ahi ao seu
Trouxerão auguas á mão.
Regou Pindaro e Alceu,
E em môres prados Platão! Mas é a que ora aprendo
Ler por eles de giolhos.
De que sei quam pouco entendo.
Mas fossem dinos meus olhos,
De cegar sobre eles lendo!
Que, dos seus misterios altos
Assi lubrigando vejo
Que não são pêra tais saltos:
Gemo sômente e desejo.
Em 1526, Sá de Miranda encontrava-se, sem duvida, de volta a Portugal. Reinava, avia muito, o seu nunca desmentido amigo, el rei D. João III. Passava dos trinta e cinco annos. A sua mentalidade achava-se enriquecida com os preciosissimos conhecimentos adquiridos em sua excursão por Italia.
Seu animo retemperado e energico casava perfeitamente com a firmeza de seu caracter. Traçara os seus planos e estava resolvido a executal-os. Como sustenta a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, tratava de dar novas sendas ás lettras patrias, de estimular os poetas com o exemplo, de provar a possibilidade de um aperfeiçoamento ou antes renovamento fundamental da poetica portugueza, de fazer, emfim, a transplantação das formas e dos metros italianos.
Sá de Miranda lançou-se afoitamente á lucta, contando com uma facil victoria. Enganou-se. A resistencia foi mais porfiada do que certamente esperava e morreu mal tendo chegado a vêr os primeiros fructos de seus esforços.
Desde a sua volta a Portugal, Sá de Miranda foi decididamente o chefe da escola classica, da escola que, como disse Pinheiro Chagas, pautava as suas obras comicas pelos modelos de Plauto e de Terencio, as suas eclogas e cartas pelas de Horacio e de Ovidio, a que substituiu a redondilha popular, até então quasi exclusivamente usada, pelo verso hendecasyllabo jambico italiano e as pastoraes ainda trovadorescas de Bernardim Ribeiro pelos idyllios virgilianos e pelas imitações de Theocrito. Quebrou o grande poeta o encanto e as velhas fórmas gastas do Cancioneiro de Resende, com a futilidade da poesia palaciana, foram completamente abandonadas.
O douto e grave poeta, porém, não foi apenas o propulsor da escola classica em Portugal, mas tambem verdadeiramente o reformador da chamada escola velha, a que deu novos dias de gloria. Os rhythmos nacionaes, o grupo das singellas quintilhas e decimas, levantou-os elle á maior perfeição em suas celebres Cartas satyricas. Longe de romper fundamentalmente com a tradição, continuou a empregar os antigos metros nacionaes, voltando com frequencia ás graciosas redondilhas e até ás esparsas, vilancetes e glosas, de uma ligeira improvisação. Em o ultimo periodo de sua existencia deixou-se dominar mais absolutamente pelo classicismo que, em todo o caso, apparece em suas producções atravez do renovamento italiano.
Pena é não haver sido Sá de Miranda um poeta genial, inspirado como Camões. Com as qualidades de estudo e de observação de que era dotado ter-se-hia tornado uma poderosa individualidade.
Innegavelmente são relevantissimos os serviços por elle prestados á litteratura portugueza. É o que a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos põe em relevo ao affirmar que o illustre poeta provou que a lingua portugueza era capaz de se elevar até ás concepções mais bellas do lyrismo moderno com o soneto e a canção de Petrarcha, os tercetos de Dante, enlaçados em elegias e capitulos segundo o estylo de Bembo, a oitava rima de Policiano, Boccacio e Ariosto, e as ecloglas de Sanazarro com os seus versos encadeados e a variação melodica dos rhythmos e, finalmente, introduzindo o hendecasyllabo jambico italiano.