Propriamente a Sá de Miranda nada se deve em o que respeita a fórmas metricas. O poeta da Tapada, admirador enthusiasta dos modelos estrangeiros que estudara, imitou, em geral escrupulosamente, a estructura das estrophes, introduziu fórmas novas, reformou e aperfeiçoou, mais nada. Podia ter ido muito longe, variar os typos por meio de leves modificações no encandeamento da rima, e no agrupamento dos septenarios na Canção, mas não ousou arcar com essas responsabilidades. Unicamente quanto ao assumpto e á linguagem se reservou uma completa e perfeita originalidade e d'esse modo concorreu bastante para o aperfeiçoamento da lingua portugueza, ainda rude e pouco melodiosa, além de que poude legar á posteridade as suas sempre apreciadas Cartas. Isso o salvou, tambem, do fiasco de algumas mal succedidas tentativas de innovação.

Tem-se pretendido negar a Sá de Miranda a iniciativa quanto ao emprego de novas fórmas metricas. Faria e Sousa foi o primeiro que contestou a actividade e influencia do illustre poeta como reformador, ridicularisando-o e rindo-se de suas pretensões. O satyrico e faceto Diogo Camacho de Sousa, que nem o grande epico, o immortal auctor dos Lusiadas, poupou, chamava-lhe

poeta até o embigo.

Tolera-se ou desculpa-se que Faria e Sousa e Camacho aquilatassem por essa forma o merito de Sá de Miranda. Não se podia esperar outra cousa de seu engenho satyrico.

De outra ordem é a affirmativa, feita por criticos respeitaveis, de que os proprios versos que se dizem italianos e introduzidos por Sá de Miranda já eram conhecidos na peninsula do uso dos provençaes que os imitaram dos arabes. José Maria de Andrade Ferreira, em seu Curso de Litteratura Portugueza, vae até declarar cathegoricamente que, no tocante a artificio metrico e variedade rhythmica, nada se póde produzir que não fosse adoptado por aquelles poetas.

Assim, na opinião de certos escriptores, e para mais auctorisados, foram os portuguezes os inventores da medida grande, limitando-se os italianos simplesmente a seguir o trilho dos poetas lusitanos. Querem esses que o infante D. Pedro, o das sette partidas e que desastradamente encontrou a morte em Alfarrobeira, haja escripto os primeiros sonetos portuguezes. Segundo esses, ha hendecassyllabos e septenarios italianos, como tambem muitissimas oitavas rimas, não sómente em o Cancioneiro de Resende, em Bernardim Ribeiro e Christovão Falcão, mas até no poema do Cid e no de Alexandre e em muitas coplas dos Cancioneiros da Vaticana, Collocci Brancuti e de Ajuda. Portanto, como pretende Andrade Ferreira, pouco deveria o parnaso portuguez aos chamados quinhentistas.

O erudito Dias Gomes foi mais commedido e mais sensato em sua apreciação. Attribuindo a introducção do soneto, em Portugal, ao famoso infante D. Pedro, concedeu, todavia, que Sá de Miranda o aperfeiçoou e estabeleceu da maneira que ao presente o vemos. Admitte, egualmente, que o poeta da Tapada nos ensinou a estructura da canção, da oitava rima e do terceto. O sr. Theophilo Braga, em sua Historia dos Quinhentistas, cita a opinião de Dias Gomes e accrescenta que foram essas formas quasi exclusivas que abraçaram depois os poetas da escola italiana, do que se deprehende que a partilha.

Mais recentemente, deve-se á ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos o relevante serviço ás lettras patrias de verificar até que ponto eram fundadas as criticas dirigidas contra a obra de Sá de Miranda. D'esse estudo resultou tomar aquella senhora a peito a defeza de haver elle iniciado—a escola nova italiana, introduzindo o hendecasyllabo, ensinando a estructura do soneto, dos capitulos (ou elegias) em tercetos, as fórmas fundamentaes da canção e a oitava rima italiana, e mostrando tambem como estas tres formas estrophicas se podem combinar na ecloga. Não que tão conscienciosa escriptora queira negar a filiação historica, a origem commum do decassylabo limosino e do hendecasyllabo italiano, ou antes, a relação de dependencia do segundo para com o primeiro, mas, em vista da pouca clareza com que os dois metros têm sido classificados, em Portugal, accentuar a sua differença.

Exactamente á confusão resultante da falta de methodo no contar e medir das syllabas e á pouca clareza na terminologia dos versos portuguezes, attribue a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos a contestação de que fosse Sá de Miranda um innovador. Uns, attendendo unicamente aos sons, aos agudos, contam por syllabas de um metro as que se preferem até á ultima aguda, metrica, ou seja pausa, desprezando as breves que se lhe sigam. Outros, pelo contrario, tomando por norma do verso portuguez o grave ou inteiro, contam as syllabas accentuadas, grammaticaes realmente, além da pausa. D'ahi que uns chamaram ou chamam hendecasyllabo, ou de onze syllabas, ao verso que outros denominam decasyllabo jambico limosino, inventado pelos trovadores da Provença e imitado em Italia, Catalunha, Castella e Galliza. Ainda segundo prova a illustrada senhora, as oitavas rimas que os mesmos criticos descobriram na antiga poesia portugueza são, em realidade, estrophes de oito linhas ou oitavas, mas estas estrophes ou se compoêm de duas quadras peninsulares ou são oitavas hespanholas em versos de arte maior.

A nosso vêr, a argumentação da ex.ma sr.ª D. Carolina de Vasconcellos resolve satisfatoriamente a questão. Pode-se d'ella concluir a affirmativa cathegorica de que, antes da viagem de Sá de Miranda á Italia, não existiam, em Portugal, a oitava rima, o soneto, a elegia em tercetos e a canção italiana. Tão pouco se compozera qualquer poesia em hendecasyllabos e septenarios, com accentos fixados á maneira toscana. Sá de Miranda bebeu na nascente, inspirou-se pessoalmente em a propria Italia, com seus grandes e immorredoiros artistas, e, quando de lá voltou á patria, poz-se a seguir as formas ali em uso, o que, de resto, elle proprio confirma e confessa ingenuamente nas rubricas de suas poesias.