Fizera-se, realmente, sentir o classicismo na peninsula hispanica, mas a sua influencia poetica havia sido fraca e desapparecera quasi sem deixar vestigios. E mesmo se limitara a um vago conhecimento da escola dantesca, inaugurada por Imperial e em que se enfileiraram João de Mena, o Marquez de Santilhana e D. Fradique de Vilhena. O Marquez de Santilhana, antes de 1458, escrevêra já alguns sonetos. Outros poetas metrificaram em tercetos. Imperial, em seu Dezir a las siete virtudes, imitou o verso de onze syllabas.
Essas innovações foram, porém, prematuras. Não fructificaram por falta de meio apropriado e em breve cairam em o mais completo abandono. Quanto não custou a Sá de Miranda implantar as suas! Não ha provas, de resto, de que aquellas tenham sido conhecidas em Portugal, ou, pelo menos, de que se lhe haja ligado a minima importancia. Apenas em o Cancioneiro geral se nota uma tendencia accentuada para o symbolismo e allegoria e uma forte inclinação para o didactismo, em um gosto de eruditismo escolastico.
Sá de Miranda é, pois, incontestavelmente, senão o fundador, o propulsor da escola classico-italiana em Portugal. Visitando a Italia, quando esta peninsula attingia o maximo de sua elevação intellectual, preso de um santo enthusiasmo, dedicou-se com alma a reformar a nossa poetica segundo os modelos que lá fóra vira tão apreciados. Não quiz classisar a litteratura patria exclusivamente, mas levantar a poesia de sua decadencia por meio dos modelos italianos que estudara. Com justiça, pois, o nome de Sá de Miranda abre um novo periodo na historia litteraria portugueza, que com Ferreira e Camões se ergue ás maiores alturas.
Para as imperfeições metricas e rhythmicas de Sá de Miranda, perdoaveis em quem, como elle, tinha a luctar com as difficuldades da amoldação e com as rudezas de uma lingua ainda não desbravada de todo, já a Vida, verdadeiro espelho do pensamento dos seus contemporaneos, teve a attenuante de que foi elle o primeiro que compos versos grandes neste Reyno, bastante desculpa das miudezas que se tachão em alguns seus desta medida pera aquelles homens, ao menos que attendendo ao que se diz, não curão muito do modo. A Vida considera os defeitos do poeta como accidentes de nenhuma importancia, attendendo a que elle não somente foy inculpavel na gravidade das sentenças, na agudeza dos conceitos, na propriedade dos termos, na moralidade das figuras, na imitação dos Poetas, na observação das regras, senão inimitavel tambem na pureza com que fallou em materias amorosas.
É pouco de estranhar que Sá de Miranda não tivesse em suas obras a inspiração de Camões, porque devia luctar com grandes difficuldades para amoldar o portuguez duro e rude dos heróes da Africa e da India ao espirito philosophico das suas idêas e á harmonia das novas formas poeticas que pretendia introduzir em Portugal. D'ahi a sua inferioridade manifesta e incontestavel na parte em que mais se inclina para os modelos da escola classico-italiana, inferioridade que ainda mais põe em relevo o brilhantismo das suas redondilhas tão nacionaes.
Innovador convicto, preoccupava-se com a imitação dos modelos estrangeiros que o deslumbravam e aos quaes desejava egualar, senão exceder. Estudava constantemente procurando seguir com o maior rigor as regras da arte. Fel-o tão a contento dos partidarios de sua escola, que a Vida chega a sustentar que os que attentamente o passarem não lhes ficará necessidade de lêr em as Poeticas de Aristoteles e Horacio, que elle, parece, não largaria da mão.
O poeta, em sua sêde de perfeição, não se dava nunca por satisfeito com a sua obra. Continuamente refundia os seus trabalhos, cortava aqui, accrescentava além e, pode se dizer, morreu sem deixar uma forma definitiva de sua enorme producção poetica. A grande quantidade de variantes tem sido a maior difficuldade para as edições de suas obras.
Sá de Miranda desejava hombrear com os extraordinarios talentos que admirara em Italia e cujos livros eram os seus ocios de todos os dias. Sentia-se fraco de forças e não se cançava em procurar aperfeiçoar-se. O proprio poeta o confessa lealmente em o soneto com que fez acompanhar a remessa do seu terceiro manuscripto de versos ao principe D. João, filho de D. João III, espirito culto prematuramente apagado.
Tardei, e cuido que me julgão mal,
Que emendo muito e que emendando, dano.
Senhor, que hei grande medo ao desengano,
D'este amor que a nos temos desigual.
Todos a tudo o seu logo achão sal:
Eu risco e risco, vou me de ano em ano.
E este mal contido suspiro pela sua impotencia: