Ando cos meus papeis em diferenças!
São perceitos de Horacio, me dirão.
Não posso em al, sigo o em aparenças.

A sinceridade de Sá de Miranda é a melhor justificação das imperfeições que se lhe possam notar.

Ao voltar a Portugal, Sá de Miranda observou com profundo desgosto a completa transformação que se operava na côrte. Os symptomas da decadencia moral da fidalguia tornavam-se evidentes, salientavam já como manchas negras. Dominada pela febre do ouro que se fizera contagiosa, a nobreza esquecia o proverbial cavalheirismo e atirava-se desatinamente á mercancia para obter a todo o preço dinheiro e muito dinheiro.

A sede do ouro e dos prazeres, sede desenfreada e que nada saciava, substituira a elevação culta dos serões do tempo de D. Manuel. Quão mudados andavam os tempos! Da poesia já poucos queriam saber. E o mal augmentava em um resvalar pavoroso que ia trazer a Inquisição e levar até á infamissima cobardia que entregou Portugal a Castella.

Posteriormente, já em o retiro a que resolvera recolher-se, em carta dirigida ao seu amigo Antonio Pereira, Sá de Miranda descreve admiravelmente a situação deploravel em que caira o paiz. As causas são bem apontadas e a comparação com as eras passadas não pode ser mais bem feita.

Não me temo de Castela
Donde guerra inda não soa,
Mas temo me de Lisboa,
Que o cheiro d'esta canela
O reino nos despovoa,
E que algum embique ou caia!
O longe va, mao agouro
Falar por aquela praia
Na riqueza de Cambaia,
Narsinga das torres de ouro.
Ouves, Viriato, o estrago
Que ca vai dos teus custumes:
Os leitos, mesas, os lumes,
Tudo cheira: eu olios trago,
Vêm outros, trazem perfumes.
E aos bons trajos de pastores
Em que saístes ás pelejas
Vencendo tais vencedores,
São trocados os louvores,
São mudadas as envejas!
É entrada polos portos
No reino crara peçonha
Sem que remedio se ponha.
Ums doentes, outros mortos,
Outro polas ruas sonha.
Fez nos a ousada avareza
Vencer o vento e o mar,
Vencer caje a natureza.
Medo hei de novo a riqueza
Que nos torne a cativar,

Sá de Miranda, que já se sentira aturdido com a desenvoltura, a dissolução dos costumes que presenciara em Italia, ficou apavorado ao conhecer o avassalador mercantilismo da côrte portugueza. Com que energia a invectiva depois:

Escravos mais que os escravos,
Por rezão e por justiça
Deixai-vos dos vossos gabos,
Que vos vendeu a cobiça
A mar bravo e a ventos bravos!

Homem recto, consciencia impolluta, Sá de Miranda não se poude ter que se não retirasse logo para Coimbra, a sua querida, a sua adorada terra natal. Mas, quando fugia á côrte, esta, escorraçada pelos horrores da peste, que fazia de Lisboa um horrivel cemiterio, seguia-o ahi, a acolher-se temporariamente á hospitaleira cidade.

Sá de Miranda possuia em Coimbra, ou em seus arredores, alguma propriedade situada junto ao Mondego e com a vista sobre a serra, certamente deixa de seus paes. É o que se tira de seus proprios versos,