No lugar onde me vistes
De agua e do monte cercado

N'essa propriedade, pensaria o poeta encontrar um refugio contra as tentações com que ainda o poderia seduzir a côrte. Ahi contaria, com effeito, mais dias

De ledos que não de tristes.

A ida de D. João III a Coimbra constituiu verdadeiramente uma simples visita. De todas as supposiçoes que se tem feito ácerca da saída do monarcha de Lisboa, por causa da peste, a mais verosimil é que essa epidemia deu logar a pequenas excursões. A estada da côrte, em 1527, em a Athenas portugueza foi tão rapida, que el-rei passou o Natal em Lisboa, encontrava-se a 15 de fevereiro de 1528 em Almeirim e achava-se de volta a Lisboa de fevereiro a junho de 1530.

Sá de Miranda, que estava em suas terras nas margens do Mondego, ao saber da viagem do seu excellente amigo o monarcha e da joven rainha, que pela primeira vez ia a Coimbra, correu á cidade a recebel-os, a promover festas em sua honra e elle proprio pronunciou o discurso de recepção dos regios personagens. E, com vontade ou sem ella, restabeleceu, então, as suas relações com a côrte. Consolou-se, talvez, por ver que se lhe offerecia occasião de iniciar a propaganda a favor das idêas e formas poeticas que trouxera de Italia, de as defender calorosamente e de mostrar as bellezas dos seus grandes vultos litterarios, Sanazarro, Dante, Petrarcha, Ariosto, Bembo e Dante, cujas obras possuia.

Certamente, a conversação com Sá de Miranda devia ser procurada pelos fidalgos mais illustrados que faziam parte do sequito do rei. A consideração que gozava pelo respeito que infundia a sua rectidão de caracter, a longa viagem feita pelo estrangeiro e de onde ainda ha pouco regressara, o muito que devia ter visto e aprendido durante sua excursão, tornavam-o, sem duvida, reclamado em a côrte. O poeta aproveitou este seu predominio para pugnar pelo triumpho dos grandes mestres de Italia, estimulando a curiosidade dos espiritos mais illustrados e intelligentes, patenteando-lhes as perfeições litterarias dos seus trabalhos, emfim, preparando-os para bem receber as suas projectadas obras. Ao mesmo tempo, ia desassombradamente atacando com vigor as producções dos escriptores nacionaes, apontando e condemnando os defeitos que lhes encontrava.

Não foram baldados os esforços de Sá de Miranda. A côrte teve que se render ante o seu talento e a sua erudição. Como diz a Vida, co as colidades de sua pessoa e boas partes que nelle concorrião, sem outra alguma ajuda das que costumão levantar ainda os indignos, se fez tamanho lugar, que foy sem controversia, senão o mayor hum dos mais estimados cortesãos de seu tempo, concorrendo cos milhores que este Reyno teve por ventura, e isto não só dos companheiros, mas del Rey e dos Principes, e o que he mais dos vallidos com quem ordinariamente nam adiantão os amigos de antes quebrar, que torcer (como elle diz) tomando em desprezo proprio a estimaçam alhea e sentindo como injurias particulares a detestaçam que os judiciosos e discursivos fazem dos vicios em geral. Com effeito, Sá de Miranda atou e sustentou relações de estreita amizade com alguns dos mais nobres fidalgos, como D. Luiz da Silveira, D. Manuel de Portugal, Pero Carvalho e outros.

Sá de Miranda não se limitou, porém, a propugnar pela divulgarisação dos modelos classicos. Foi mais além e começou a atacar com energia os vicios do tempo, a corrupção que alastrava sem dique. A renovação de seu trato com a côrte permittiu-lhe estudar a fundo os novos costumes dos principes e dos aulicos e analysal-os com olhos de ver para melhor lhes applicar o ferro candente.

Em Coimbra, os cortezãos, e a cohorte de parasitas que os seguira até ali, foram de uma insaciedade fora de commum. A nobreza da cidade exhauriu-se até de recursos para proporcionar uma vida regalada aos exigentes fidalgos, mas nada os contentou. Acostumados ás montarias aventurosas da graciosa Almeirim e á vida regalada da farta Santarem, não cessaram de clamar contra a existencia atribulada e parca que levavam na soturna cidade. Sentiram-se bem quando a deixaram, voltando para o sul do paiz.

Sá de Miranda, que fôra dos que promoveram a mór parte das festas em honra dos famelicos cortezãos de seu amigo D. João III, conteve a custo a indignação. Mas, quando a côrte d'ali retirou, a sua ira rompeu caustica como um ferro em brasa. Dirigiu, então, a Pero Carvalho, guarda roupa do rei, essa famosa carta, coriscante diatribe que foi ferir certeiramente os alvejados.