N'essa carta, o poeta começa por exprobrar a maledicencia da fidalguia e lançar-lhe em rosto a sua ingratidão para com uma cidade que toda se esmerara em bem recebel-os. Fal-o, não por um exclusivo sentimento de amor á terra natal, mas por um acto de justiça, homenagem á verdade.

Que tenção todos tomastes
Á terra que me criou
De que tanto praguejastes?
Por que? Que vos acoutou
Da peste com que i chegastes.
Fostes mal agasalhados?
Não, certo, que té as fazendas,
Vos davão parvos honrados.
Pois, por que? Porque os privados
Tinheis longe vossas rendas?
O que eu por parcialidade
Nem outros respeitos digo:
Da antiga e nobre cidade
Som natural, som amigo,
Som porém mais da verdade.

Após a retirada dos famelicos, a cidade sente-se aliviada de um grande peso. O proprio poeta viu-se desafrontado.

Como vos partistes de i,
Logo abrigados achei
Em que me desencolhi.
Seguramente dormi,
Seguramente velei.

Para envergonhar os cortezãos ingratos que lhe preferiam a insignificante Almeirim, põe em relevo a honra de Coimbra possuir o corpo de D. Affonso Henriques.

Cidade rica do santo
Corpo do seu rei primeiro
Que ainda vimos com espanto,
Ha tam pouco, todo inteiro
Dos anos que podem tanto.

E diz-lhe que aquella cidade é tradicionalmente a mais nobre e leal.

Outro rei, tanto sem mal
Que lhe empeceu a bondade,
O quarto de Portugal,
Qual teve ele outra cidade
Tam constante e tam leal?

A nobreza ociosa e interesseira.

Homens que sempre aos proveitos
E a vosso interesse andais,
Vestidos de falsos peitos,
Quam pouco que nos lembrais
Dos sãos, dos comuns respeitos.
Pôr esta causa se ve
Diferença nos conselhos
E chega inda o mal até
Desacreditar nos velhos
A sã prudencia e a fe.