A côrte é magnificamente pintada.

Essa Circes feiticeira
Da corte tudo trasanda;
Um faz ũa onça ligeira,
Outro faz lobo que manda,
Outro cão que a caça cheira.
Cantão ó passar sereas
Que fazem adormecer.
Correndo todas as veas
De sono e tal sabor cheas,
Não se pode homem erguer.

A ociosidade nociva a que se entregava a fidalguia recebe uma condemnação severa. Sá de Miranda, para revestir da maior auctoridade as suas palavras, poe-a em confronto com a sua vida toda de trabalho e de estudo.

O nome da ociosidade
Soa mal, mas se ela é sã,
Bem empregada em vontade,
Socrates da liberdade
Sempre lhe chamou irmã!
Dou vos Enio por autor:
Quem não sabe usar do ocio
Cansa e anda d'arredor,
Que vem a têr mais negocio
Que um grande negociador.

Que ó menos sabe apos que anda,
Estoutro a si não se entende,
Quanto anda, tanto desanda,
Não se obedece nem manda,
Ora se apaga, ora acende.
Ve-lo ir, ve-lo tornar,
Ve-lo cansar e gemer
E em busca de si andar,
Cobrar a cor e perder.
Que se não pode topar!
Mas eu, porque passa assi,
Que seja muito, direi:
Dias ha que me escondi,
Co que li, co que escrevi,
Inda me não enfadei.

Satyra directa e violenta, a carta a Pero Carvalho provocou uma surda irritação de despeito, mal contida pelo temor do valimento do poeta junto do monarcha. Os fidalgos attingidos não poderam tirar immediatamente o desforço, tiveram que ouvir e calar, mas, d'ahi em diante, poude Sá de Miranda contar com alguns inimigos que deviam aguardar com anciedade o momento da vingança.

O unico passatempo da côrte era, então, as diversões scenicas, os autos ou comedias representadas perante a nobreza. Gil Vicente, emquanto a côrte esteve em Coimbra, ia ahi propositadamente, de Santarem, onde habitualmente residia, segundo se infere de suas producções, divertil-a com suas farças. Com esse fim compoz a Comedia sobre a Divisa da Cidade de Coimbra, a Tragicomedia Pastoril da Serra da Estrella, a Farça dos Almocreves e o Dialogo sobre a Resurreição.

Talento dramatico genial mas inculto, viva encarnação do espirito popular, satyrico e motejador, Gil Vicente arremettia audaciosamente com todos e com tudo, não respeitando sequer as coisas divinas. Seus autos e farças eram um tanto grotescas, por vezes excessivamente livres, algumas extraordinariamente louvaminheiras dos cortezãos. O dialogo não era dos mais apurados nem a acção muito cuidada.

Sá de Miranda, que assistira, em a scena italiana, a representações de comedias classicas em prosa, originaes, com um fino dialogo, limadas de allusões facêtas, acção escolhida, não poupava censuras nem criticas aceradas ás producções de Gil Vicente. Sobretudo, condemnava asperamente a liberdade com que o creador do theatro nacional tirava das sagradas escripturas os elementos de todos os seus autos hieraticos. Catholico fervente, não lhe perdoava que tratasse coisas serias em estylo chocareiro, zombeteando escandalosamente de quanto lhe era respeitavel.

E, para mais pôr em evidencia a elevação da comedia classica em prosa, para estabelecer o confronto de esta com o theatro nacional, compoz e apresentou Os Estrangeiros, em a opinião da ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos a primeira comedia classica portugueza em prosa, sendo-lhe posterior a Eufrosina de Jorge Ferreira de Vasconcellos. Foi acolhida com interesse.

Houve quem applaudisse enthusiasticamente Os Estrangeiros por seu estylo sentencioso, muy limado e novo, que a tudo excedia em brevidade, grandeza e decoro e que guardava as regras da arte com summa perfeição. Os partidarios do theatro nacional, envolvidos por Sá de Miranda nos gracejos do Prologo, sentiram-se attingidos e receberam a novidade com zombarias. A lucta contra a innovação, acirrada de certo pelos inimigos de um e outro poeta, parece ter se tornado porfiada, d'ahi em diante.