Das relações pessoaes entre Sá de Miranda e Gil Vicente, o mais fiel representante da tradição nacional, não se pode, em verdade, mais fazer que conjecturas. É provavel que Sá de Miranda não tivesse Gil Vicente em grande consideração pela liberdade com que usava e abusava dos livros sagrados, facto que o magoava a elle que, embora não fosse fanatico nem exaltado, era, todavia, sincero e respeitador. Não se encontra, porém, em suas composições poeticas, uma unica allusão directa, incisiva, sobre o emerito auctor da Ignez Pereira.

Qual o proceder de Gil Vicente para com o acerrimo propugnador dos modelos classicos? O sr. Theophilo Braga vê, no final da Comedia sobre a Divisa da Cidade de Coimbra, em o elogio dos Menezes, um acto de louvor a Sá de Miranda, descendente de aquella familia, por parte de seu antepassado João Rodrigues de Sá de Menezes. Por seu lado, o grande romancista Camillo Castello Branco viu em a farça Clerigo da Beira uma satyra a Sá de Miranda, pessoal de mais para se considerar mera casualidade.

Em a alludida farça, Gil Vicente refere-se a um filho de clerigo, de nome Francisco, de más manhas e peor lingua, com costella de lavrador e pretensões de cortezão. O proprio pae, parece que com pleno conhecimento de causa, lhe diz:

Filho de clerigo és,
Nunca bom feito farás.

Frei Mendo não anda muito de accordo com o filho, é um continuo conflicto entre os dois. O clerigo, menoscabando as qualidades d'elle, invectiva-o:

Medraria este rapaz
Na côrte mais que ninguem,
Porque lá não fazem bem
Senão a quem menos faz
Outras manchas tem assaz,
Cada uma muito bôa:
Nunca diz bem de pessoa,
Nem verdade nunca a traz.
Mexerica que por nada
Revolverá San Francisco
Que para a côrte é um visco,
Que caça toda a manada.

Realmente, esta allusão aos filhos de frei Mendo, sendo o pae de Sá de Miranda o conego Gonçalo Mendes, parece tencional. A farça, porém, foi representada em 1520, em Almeirim, e não se sabe como conciliar essa data com a do regresso do poeta de sua viagem á Italia. Ou será necessario admittir-se que, em fins d'esse anno, elle estaria de volta a Portugal e já gosava o favor da côrte? Pode ser.

Em tal caso, comtudo, essa allusão viria mais da popularidade de Sá de Miranda, de sua presumpção pelo muito que vira e ouvira no estrangeiro e não seria resultante de suas tentativas de innovador, embora logo após o seu regresso houvesse começado a atacar os defeitos que encontrava em as obras portuguezas. Seria mesmo uma satyra impessoal, caracteristica de uma entidade do tempo. Quantos conegos Mendes haveria então? como hoje Marias e Manueis.

Indubitavelmente, as innovações de Sá de Miranda deviam encontrar opposição e as suas obras detractores. Sim, que o poeta era um severissimo censor, um caracter immaculado. Sá de Miranda não recuou e a breve trecho lançou um novo desafio á escola do theatro tradicional portuguez com a bella Fabula do Mondego, em forma de canção e que, ao que resulta de algumas de suas passagens, foi representada em a côrte na estação calmosa, em um certo e determinado dia festivo, talvez o anniversario de el-rei, 6 de junho. A seguir, appareceu a ecloga Aleixo e varios sonetos que mais vieram augmentar a reputação de Sá de Miranda e, tambem, os seus rivaes.

A ecloga Aleixo! Foi a melhor arma que Sá de Miranda poude collocar em as mãos de seus inimigos.