De varias formas tem sido explicado o abandono definitivo da côrte por Sá de Miranda, entre 1533 a 1534, para se retirar á Commenda das Duas Egrejas. As causas d'esse exilio voluntario, a par de forçado, foram, decerto, complexas e multiplas, ao que se pode ler em as entrelinhas de suas poesias e nas do seu anonymo biographo, muito prudente para com uma allusão directa fazer reviver rancores mal apagados.
A Vida dá como motivo immediato da saida de Sá de Miranda da côrte o odio de hua pessoa muito poderosa d'aquella era em desprazer de quem se interpretava mal polla mesma enveja hum lugar de sua Egloga de Aleyxo. Temos por tão auctorisada a Vida, que não ousamos duvidar da veracidade de sua noticia, além de que a interpretação da ecloga Aleixo, como perfeitamente o provou a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, explica cabalmente o obscuro successo. Porém, nem todos os escriptores têm interpretado o caso como vem evidenciado em a Vida.
Indo de encontro á cathegorica affirmativa do desconhecido biographo, o sr. Theophilo Braga quer que tenha sido a ecloga Andrés e não Aleyxo, a causadora immediata da intriga que provocou o exilio de Sá de Miranda. Ora, exactamente essa ecloga foi escripta quando já o poeta se encontrava em a Tapada, após o seu casamento e annos depois da morte de todos os que se podiam offender com as allusões n'ella contidas, allusões que Sá de Miranda dava, de resto, como uma simples recordação de annos passados. Não podem, pois, as referencias ao caso escandaloso do casamento do infante D. Fernando, que arrancára D. Guiomar Coutinho ao marquez de Torres, com quem secretamente se desposara, para casar com ella, ter concorrido em cousa alguma para que Sá de Miranda se visse compellido a abandonar a côrte.
Tão pouco satisfaz o espirito ou resolve o problema, a hypothese avançada por Camillo Castello Branco. O facto de seus primos e amigos, a par de companheiros de infancia, Simão de Miranda Henriques e Gonçalo de Miranda da Silva, haverem sido iniquamente esbulhados dos seus haveres, devia, certamente, feril-o profundamente em seu coração, indispôr ainda mais seu animo contra a torpe fidalguia, azedar o seu caracter, mas não impôr a sua saida da côrte.
O erudito escriptor Manuel Pinheiro Chagas attribuiu exclusivamente o rompimento definitivo de Sá de Miranda com a côrte ao seu amor ao retiro, inclinação propria do temperamento melancolico e um pouco misanthropo do poeta, aggravado pela morte de uma mulher que amara profundamente e que apenas seria conhecida pelo pseudonymo pastoril de Celia. Parece demasiado accesso de romanticismo quando este ainda não estava em voga.
Não foi nenhuma d'estas circumstancias isolada, mas sim todas juntas a causa do exilio de Sá de Miranda. Os successivos escandalos da côrte, que se multiplicavam prodigiosamente, o constante accrescendo da attitude aggressiva de seus inimigos, cujos desvarios não poupava, o convencimento de que, por então, não podia levar por diante o seu ideal de reforma litteraria e de engrandecimento da poesia portugueza, haviam chocado muito o animo forte e persistente de Sá de Miranda. O espirito do poeta, de si propenso para a solidão, foi-se aggravando.
Haviam terminado os bons tempos. Emquanto os chronistas, attentando unicamente em o brilho das exterioridades, continuavam a entoar hymnos ao engrandecimento do paiz, Sá de Miranda profundava em todo o seu horror a enorme decadencia moral, analysava a corrupção que tão intensamente lavrava e divisava em o sombrio horisonte os pavores de um futuro de aniquilamento. Ninguém quiz ouvil-o. Desilludiu-se e pouco a pouco foi radicando-se em sua mente a idêa de abandonar para sempre a vida turbulenta e miseravel da côrte, tanto que começou a solicitar de seu amigo D. João III a commenda das Duas Egrejas.
Deu-se, então, o successo da ecloga Aleixo. Veiu elle epilogar o conflicto travado em a consciencia do poeta.
A antiga amizade de Sá de Miranda por Bernardim Ribeiro mantivera-se, senão avigorara, atravez das vicissitudes de um e outro poeta. Em a ecloga Aleixo, ao que parece composta e representada por 1530, Sá de Miranda referiu-se ao desterro de seu amigo, defendendo-o com palavras dedicadas.
Juan
No sé como no llorava.
Sabes porque sospirava?
Porque aqui canto Ribero,
Aqui nuestro amo escuchava,
Rodeavan lo pastores,
Colgados de la su boca
Cantando el los sus amores.
Gente de firmeza poca
Que le dió tantos loores,
I aora ge los apoca!
Anton
Eso falta, Juan pastor!
Soncas, porque sospirar?
I a que se pueden alzar
Ia los ojos sin dolor?
Ni a que se pueden bajar
Donde los pornás enjutos?
Adelante, o cara atras?
Las tierras niegan sus frutos:
El sembrar es por demas,
Los aires andan corrutos,
Los hombres cada vez mas.
De aquel gran pino a la sombra...
Ia ves quanto que ensanchó!
Que el prado i zarzas cobrió
I los vezinos asombra.