A allusão, o gran pino, entendia-se com o valido de el-rei, o conde de Castanheira D. Antonio de Athaide. Este, como todos os favoritos poderosos, orgulhoso e despotico, abusava com frequencia de seu prestigio e, no caso a que se referia a ecloga, elle não deixaria de concorrer grandemente para o desenlace que se deplorava.

Embora franca e rude, a allusão era, comtudo, digna e não deprimente. Os inimigos de Sá de Miranda aproveitaram-a para tecer uma habilissimateia e afastarem para longe o atrevido poeta, implacavel para com os seus desmandos. Intrigando na sombra, torceram a interpretação da ecloga e deram ao trecho incriminado um sentido que, certamente, não tinha. Apresentaram-o como um ataque directo. O conde de Castanheira, cioso de seu valimento, comprehende-se bem, não poude levar á paciencia a intervenção do poeta e muito menos tolerar o que considerou atrevidos insultos.

Quaes as consequencias da torpissima intriga e do furor do valido, eis o que não é precisamente conhecido. Dos versos de Sá de Miranda pode-se inferir que foi cruelmente perseguido, correndo talvez mesmo grave risco de, quem sabe, ser assassinado. Com effeito, mais tarde, quando já em seu retiro, escrevia a seu irmão:

Agora, por que vos conte
O que vi, tudo é mudado:
Quando me acolhi ó monte,
Por meus imigos de fronte
Vi lobos no povoado:

e tambem:

Polo qual a este abrigo,
Onde me acolhi cansado
E ja com assaz perigo,
A essas letras que sigo,
Devo que nunca me enfado,
Devo a minha muito amada
E prezada liberdade
Que tive aos dados jugada.
Aqui sômente é mandada
Da rezão boa e verdade.

A bella Canção a Nossa Senhora parece ter sido escripta quando o poeta soffria duro captiveiro. Pelo menos, se se tomar á lettra estes versos:

ao meu destroço,
Assi tam perseguido como vedes,
D'antres tam altas, tam grossas paredes,
De ferro carregado,

Note-se que essa canção, como o proprio Sá de Miranda declara, foi feita por aquela de Petrarcha: «Virgine bella». Longe de constituir uma vaga reminiscencia, é uma imitação positiva, embora livre, e que se pode acompanhar com o modelo. Se nãohouvesse a confissão do consciencioso poeta em seu ms., bastaria a simples confrontação para o provar. Dias Gomes, que a analysou com uma minucia de grammatico estrophe por estrophe, verificou que o poeta portuguez até lhe deu o mesmo numero de estancias e versos, a mesma disposição metrica e simulcadente, começando, como retrarcha, cada uma d'aquellas pela palavra Virgem.

Não ha duvida em que a factura da Canção seja posterior ao regresso do poeta ao paiz. Mas seria composta por esta epoca? A ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos julga que sim.