A illustrada senhora, reconhecendo que o assumpto foi tratado magistralmente e que a Canção de Sá de Miranda excede em muito o seu modelo, quanto á profunda expressão e intensidade do sentimento, não concorda com Dias Gomes em que ella seja a producção mais sublime que se encontra nas composições do illustre poeta da Tapada. A nosso ver, a Canção, realmente admiravel pelo sentimento que a vivifica, tem o seu tanto ou quanto de artificiosa.

Se não, veja-se:

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Virgem, seguro porto e emparo e abrigo
Ás môres tempestades; ah que tinha
Ós ventos esta vida encomendada
Sem olhar a que parte ia ou vinha,
Vãmente descuidado do perigo,
Surdo aos conselhos, tudo tendo em nada,
Não vos seja em despreço ũa coitada
Alma que ante vos vem,
Por rezõis que tem,
De imigos grandes mal ameaçada.
E que eu tam pecador e errado seja,
Vença vossa piedade
Minha maldade grande e assi sobeja.
Virgem, do mar estrela, neste lago
E nesta noite um faro que nos guia,
Pera o porto seguro um certo norte;
Quem sem vos atinar, quem poderia
Abrir sômente os olhos vendo o estrago
Que atras olhando deixa feito a morte?
Quem proa me daria com que corte
Por tam brava tormenta?
De toda a parte venta,
De toda espanta o tempo feo e forte.
Mas tudo que será? coa vossa ajudaNévoa que foge ao vento
Que num momento s'alevanta e muda.
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Virgem, nossa esperança, um alto poço
De vivas aguas, donde a graça corre
Em que se matão pera sempre as sedes;
Não de Nembrot, mas de David a torre,
Donde socorro espero ao meu destroço,
Assi tam perseguido como vedes,
D'antre tam altas, tam grossas paredes,
De ferro carregado,
Um coração coitado
Chama por vos envolto em bastas redes.
Esse que eu som, sinais inda algums tenho
De ser do vosso bando,
Que a vos bradando por piedade venho.
Virgem do sol vestida, e dos seus raios
Toda cuberta e ainda coroada
De estrelas, e debaixo o sol, a lua,
São vindas minhas culpas d'assuada
Sobre mim tantas; valei-me ós meus desmaios!
De tantas que possa ir chorando algũa!
Não me deixárão desculpa nenhũa
Os meus erros sobejos;
Levarão me os desejos
O milhor das idades ũa e ũa.
Quem tromenta passou por toda a praia
Cos ventos contrastando,
Saia nadando, ja coa vida, e saia.
Virgem, horto cercado, alto e defeso,
Rico ramo do tronco de Jessé
Que milagrosamente enflorece,
Custodia preciosissima da fe
Que toda junta tivestes em peso
Quando um e o outro sol sua luz perdeu;
Rompão os meus sospiros o alto ceo,
E a vos cheguem, senhora,
Que assi voa de ora em ora
Envolto n'este cego e basto veo;
De dia em dia, vou me de ano em ano,
A minha fim chegando
Dessimulando a vergonha e o dano.

Não será exactamente a referencia á prisão artificio poetico? A Vida assevera que Sá de Miranda viu com desgosto a errada e malevola interpretação do Aleyxo, mas que, nem querendo declarar-se milhor, nem esperar á vista os effeitos da ira declarada, tendo-lhe el Rey dado hua Comenda do Mestrado de Christo, que chamão as duas Igrejas, preferiu retirar-se voluntariamente da côrte. Isto afasta, portanto, a idêa da perseguição.

Como se poderia explicar que o poeta soffresse duros tratos se contava com a amizade provada do seu bom amigo D. João III e com a terna affeição do herdeiro da corôa que lhe mandava pedir suas poesias! É natural que se tenha manifestado acceso, a pretexto da Aleyxo, o odio dos inimigos de Sá de Miranda, mas não parece provavel que o soberano consentisse em o ver perseguido como um animal damninho a que fosse necessario encurralar. Vamos mesmo porque se metteu de permeio agraciando Sá de Miranda com a Commenda de Santa Maria das Duas Egrejas, conhecedor de sua grande vontade de se recolher á solidão.

O facto é que Sá de Miranda abandonou a côrte para nunca mais voltar a ella. Deixou o mimo da Corte, a conversaçam dos amigos, a esperança de mayores merces assegurada no favor do Principe Dom João, que em muito tenra idade, começava a fazer lhe grande, e do Cardeal Dom Henrique, que com mostras de particular affeição assistia a suas cousas. Tudo pôz de parte preferindo-lhe o socego corporal e espiritual.

O Minho, com a sua verdura de esmeralda, o seu azul purissimo, a fertilidade de seu solo, a simplicidade encantadora de primitiva de seus costumes, prendeu o philosophico poeta. A Commenda das Duas Egrejas, a que se retirara, ficava perto do Pico de Regalados, na margem esquerda do Rio Neiva, margens deliciosas como todas as do norte portuguez accidentado e exuberante de vegetação.

Por lá se deixou ficar Sá de Miranda, no encanto e socego da paisagem, a descançar das agitações da côrte e a inspirar-se em o doce decorrer de uma tranquilla existencia. Ali, que até a natureza é tocante de candura, que tudo encanta a alma e enleva o espirito, se fortaleceu o seu animo abatido pelos desgostos experimentados na côrte e foram produzidas as suas melhores composições poeticas.

Proximo da Commenda das Duas Egrejas vivia, em propriedades suas, Antonio Pereira Marramaque, senhor de Basto, homem tido por mui douto e versado em humanidades. Antonio Pereira entregava-se á vida placida dos campos, não sem que votasse os seus maiores ocios ao estudo, acompanhando com vivo interesse o movimento intellectual da Europa. Seguia os resultados do conflicto provocado pela Reforma e defendia-a com calor. Poetava tambem.

Entre Sá de Miranda e Antonio Pereira estabeleceram-se relações que rapidamente se estreitaram e tornaram das mais intimas. Os dois poetas foram mesmo quasi inseparaveis durante cerca de dois annos, sendo Sá de Miranda hospede assiduo e considerado da casa de Basto, onde passava a maior parte do anno.