Das mãos de Antonio Pereira recebeu Sá de Miranda o primeiro exemplar das obras de Garcilaso e isto antes de 1536. Foi talvez esse offerecimento o ponto de partida da amizade que os dois sustentaram. Esse exemplar era, sem duvida, manuscripto, pois que a primeira edição d'aquellas obras appareceu em 1543. É certo que para o primeiro anniversario da morte de Garcilaso, em 1536, compôz Sá de Miranda a sua ecloga Nemoroso em que evidencia o mais intimo conhecimento não só das poesias do grande lyrico hespanhol como de sua propria vida.

Apraziveis dias passaram os dois poetas. Gozaram a pulmões cheios o encanto dos prazeres campezinos. Sá de Miranda, era inclinado á caça dos Lobos. Não faltaram egualmente festas caseiras nem representações de comedias improvisadas a que vinham assistir os mais nobres dos arredores. Ás vezes, como era amigo de musica, Sá de Miranda tangia viola de arco.

Assim foram os primeiros annos que Sá de Miranda passou em o campo. Tudo tem fim n'este mundo e essa magnifica existencia da casa de Basto terminou por haver Antonio Pereira partido para a côrte com a sua casa toda, como o poeta diz em a carta que lhe dedicou.

Não é precisamente conhecida a causa nem a data da partida de Antonio Pereira para Lisboa. Ha escriptores que affirmam ter-se ella realisado depois de 1540, isto é, em epoca em que o senhor de Basto começava a preoccupar-se com o futuro de seus filhos, nascidos por 1530, e entendia dever apresental-os na côrte. Parece a outros que Pereira pensava em os levar a frequentar a Universidade, o que não é possivel admittir-se pois que aquella, reformada por iniciativa de D. João III, voltou para Coimbra em 1537.

Seja qual fôr a causa que a determinou, a ida de Antonio Pereira para Lisboa deve ter-se effectuado antes de 1536. Accusam-o diversos indicios, entre outros os versos da carta que lhe dirigiu Sá de Miranda e pelos quaes se conclue que, ao tempo em que era escripta, viviam ainda Garcilaso e Gil Vicente. De resto, não se encontra n'ella a minima allusão a seu casamento, o que era natural dar-se sendo, como eram, os dois tão intimos amigos e constituindo aquella por assim dizer, um precioso inventario da feliz temporada que elles haviam levado em sua convivencia.

Sá de Miranda assistiu com immenso desgosto á partida de Antonio Pereira. A proposito, escreveu a esplendida carta em que lhe faz amarissimas reflexões e reprova as enormes despezas que a mudança exigia. Depois, o perigo de seu bom amigo se perverter ao contacto com essa côrte de que elle fugira!

Como eu vi correr pardaos
Por Cabeceiras de Basto,
Crecer em cercas e em gasto,
Vi por caminhos tam maos
Tal trilha, tamanho rasto,
Nesta ora os olhos ergui
Á casa antiga e á torre
Dizendo comigo assi:
Se nos deus não val aqui.
Perigoso imigo corre!

Sá de Miranda recorda saudosamente, em sua carta, o bello periodo de convivio doce e sereno que tivera com Antonio Pereira, convivio simples e puro em que a conversa attrahente e erudita do respeitavel poeta que viajara por Italia era apreciada como o merecia. Confronta bellamente esse viver de provincia, á antiga, com o dos cortezãos sempre famelicos.

Os bons convites antigos,
Antes de se tudo alçar,
Erão pera conversar
Os parentes e os amigos,
Que não pera arrebentar.

Os mezes mais calmosos do anno, julho e agosto, passavam-o os dois em a fonte da Barroca. A meza era frugal, a remir dias, placidamente, em suave conversação.