Á vossa fonte tam fria
Da Barroca em julho e agosto
(Inda me é presente o gosto)
Quam bem que nos i sabia
Quanto na mesa era posto!
Ali não mordia a graça,
Erão iguais os juizes,
Não vinha nada da praça,
Ali da vossa cachaça,
Ali das vossas perdizes!
Ali das fruitas da terra,
(Que dá cada tempo a sua)
Colhida á mão cada ũa!
Nunca o sabor a vista erra,
Cheirosa, formosa, e nua.
Oh ceas do paraiso
Que nunca o tempo vos vença,
Sem fala da nossa ou riso,
Nem carregadas do siso,
Nem danadas da licença!
Os dois poetas liam, saboreavam e discutiam as melhores producções dos poetas antigos e contemporaneos d'elles. Falavam de Ariosto, de Bembo, de Sanazarro, de Laso e de Boscan, e Sá de Miranda apontava as bellezas dos modelos que procurava introduzir, advogava colorosamente suas innovações.
Des i, o gosto chamando
A outros môres sabores,
Liamos pelos amores
Do bravo e furioso Orlando,
E da Arcadia os bons pastores.
Se eu isto estimado agora
Vira como d'antes era,
Por meu conto avante fora,
Mas não diz ora com ora:
Vão se como ó fogo a cera!
Ou como se lê em uma outra variante de sua carta;
Liamos os Assolanos
De Bembo, engenho tam raro
Nestes derradeiros anos,
Os pastores italianos
Do bom velho Sanazaro.
Liamos ao brando Lasso
Com seu amigo Boscão
Que honrárão a sua nação
Ia me meu passo a passo
Aos nossos que aqui não vão,
Desejando pôr Antonio Pereira a coberto das tentações da côrte, Sá de Miranda descreve-lhe o máo estar do paiz, aponta-lhe os perigos que corre e condemna energicamente os desvarios de uma perdida nobreza. O seu amigo, assim prevenido, decerto se acautelaria e prudentemente havia de resistir ao refluxo da absorvente maré.
É entrada polos portos
No reino crara peçonha
Sem que remedio se ponha.
Ums doentes, outros mortos,
Outro polas ruas sonha.
Fez nos a ousada avareza
Vencer o vento e o mar,
Vencer caje a natureza.
Medo hei de novo a riqueza
Que nos torne a cativar.
Em torno de Sá de Miranda como que se fez um vacuo enorme após a partida de seu inseparavel companheiro de estudos litterarios. Para bem avaliar a grandeza daquella amizade bastará apontar o logar que o nome de Antonio Pereira occupa em as poesias do cantor do Neiva. A elle communicou as impressões de suas viagens em cartas infelizmente perdidas e a elle dedicou as eclogas Nemoroso e Aleixo. Ao irmão Nunalvarez offereceu a sua esplendida Basto.
Então, tambem por 1536, parece ter Sá de Miranda passado a habitar a Tapada, vasta e magnifica vivenda com quinta e bosque que demandava a pequena distancia da Commenda. Esta transferencia de habitação tem sido mal comprehendida por alguns escriptores, inclusivé pela ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos que acha de todos os casos muito menos provavel que Sá de Miranda possuisse a Quinta da Tapada antes de obter a mercê da Commenda e que D. João III escolhesse Duas Egrejas exactamente como a mais proxima do retiro que o poeta havia preferido.
O anonymo biographo da Vida affirma expressamente que Sá de Miranda, tendo-lhe el-Rey dado hua Comenda do Mestrado de Christo, que chamão as duas Igrejas... recolheu-se a hua quinta que tambem tinha ahi perto chamada a Tapada. Indiscutivel, pois, que a quinta não fazia parte da Commenda e ainda mais indiscutivel que o poeta a possuia antes e independentemente de receber Duas Egrejas. Lá está o desconhecido contemporaneo a attestal-o por uma forma cathegorica.