É, por isso, racional admittir-se que a quinta fosse propriedade do poeta, talvez de familia, e tanto assim que continuou na posse dos seus descendentes, ao passo que a Commenda já por 1607 havia passado a outras mãos. Admissivel, tambem, que Sá de Miranda solicitasse a Commenda por se encontrar situada proximo da Tapada que já possuia. Provavel, finalmente, que a moradia em a Commenda tivesse em vista, apenas, dar tempo a realisarem-se na casa da Tapada as adaptações necessarias para receber o poeta. É de tudo o mais logico.
Sá de Miranda nem um unico momento afrouxou em sua actividade desde que se retirou ao Minho. A ociosidade foi para elle sempre uma palavra vã.
O nome da ociosidade
Soa mal, mas se ela é sã,
Bem empregada em vontade,
Socrates da liberdade
Sempre lhe chamou irmã!
As obras dos poetas contemporaneos andavam em constante leitura. Ellas o estimulavam a proseguir.
Co que li, co que escrevi,
Inda me não enfadei.
Depois, com a auctoridade de seu nome e de seu caracter, principiava a ganhar adeptos sinceros. A sua musa é, então, vigorosa como nunca. A acuidade do poeta desenvolve-se extraordinariamente.
Sá de Miranda acompanhava do Minho, com o mais vivo interesse, os menores acontecimentos politicos. Preoccupava-o o destino do paiz e não lhe era indifferente nem as prosperidades nem as desgraças que gosava ou soffria a existencia dos homens que dirigiam os destinos da patria. Esta parecia agora renascer brilhante como em os tempos aureos do venturoso D. Manuel. O movimento litterario renovava-se fazendo esperar novos dias de radiosa gloria. Na côrte, as boas lettras, a poesia, os estudos classicos, patrocinados pela familia reinante, prosperavam. A Universidade, reformada em 1537, passava a Coimbra, para que o bulicio da capital não fosse estorvo ao estudo, e para a dirigir vinham do estrangeiro professores dos mais illustres.
Sempre coherente de pensamento com as acções, esperançado em melhores epocas, Sá de Miranda escreve as suas Cartas a el-rei D. João III e ao seu velho amigo e parente João Rodrigues de Sá e Menezes. O patriota emerito mostra n'ellas o mais profundo conhecimento do que se passava na côrte e ataca com o seu costumado vigor as ambições dos aulicos. Em seu dizer sentencioso, severo mas commedido, tenta accordar as consciencias, arrancar a nobreza aos deleites de uma vida capuana e trazel-a ao estricto cumprimento do dever.
Infelizmente, os appellos do poeta foram completamente perdidos e o cataclysmo, que havia de afogar as consciencias em ondas de sangue, vinha annunciado já pelas nuvens negras que appareciam da banda de Italia. A 20 de setembro de 1539 realisava-se o primeiro auto da fé. As chammas das sinistras fogueiras, elevando-se para o ceo com esgares satanicos, eram como maldições que arrastavam Portugal até ao anniquilamento de 1580.
A ecloga Basto e as Cartas a El-rei, a João Rodrigues de Sá e Menezes e a Antonio Pereira, este esplendido grupo de poesias pertence, em o parecer da ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, parecer com que nos conformamos, ao curto espaço de tempo que mediou entre a retirada da côrte e o casamento do poeta com D. Briolanja, em 1536.