Scintilla n'essas composições a quintilha, admiravel de vivacidade, sublime de causticidade sentenciosa. Como muito bem considera a illustrada escriptora, sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, a ecloga Basto e as Cartas representam o que ha de mais original e de mais valioso entre todas as composições poeticas de Sá de Miranda. São essas as que ainda hoje mais captivam as attenções. Lêm-se com agrado, prendem o espirito pela sua graça e dominam pela forte convicção que respiram.

O sr. Theophilo Braga estima, egualmente, as Cartas de Sá de Miranda como o que ha de melhor na poesia dos quinhentistas. E diz com razão que a quintilha, em o verso de sete syllabas, popular, torna-se facil e tão engenhosa que se presta a todas as descripções, a todos os dizeres e locuções particulares da lingua, aos apophtegmas já metrificados pela tradição. Como satyras, as Cartas em nada desmerecem ás de Horacio ou de Tolentino. De resto, Sá de Miranda era, sobretudo, um moralista e a poesia prestava-se, principalmente na redondilha, para os dizeres conceituosos.

Das Cartas destaca-se, pela energia, pela hombridade e rectidão de caracter com que se affirma o poeta, a dirigida a el-rei. Como bellamente assignala a ex.ma sr.ª D. Carolina de Vasconcellos, não se sabe que admirar mais n'ella, se a nobreza da linguagem, se a alma do patriota, se o grande caracter do fidalgo, se a ironia aguda do moralista. Antes deve admirar-se, essa carta, por todo esse conjuncto de predicados raramente reunidos.

A Carta a El-rei foi, por assim dizer, a despedida do poeta a D. João III, o seu adeus á côrte. Sá de Miranda dirige-se ao monarcha como vassallo leal, cuja confiança lhe permitte fallar com desassombro, não como cortezão lisongeiro. Tem em vista expor a verdade, não a intriga. E fal-o empregando uma fórma aphoristica e sentenciosa que mais impõe a severidade de seu caracter.

Sá de Miranda relata ao rei o estado de degradação a que o paiz chegara, aponta-lhe o servilismo enganador dos fidalgos que o rodeiam, indica-lhe os perigos de que precisa defender-se e incita-o a uma acção energica para limpar e purificar a corrupta sociedade que o cerca. A consciencia do poeta, a sua grande amizade ao monarcha, o convencimento que lhe dá o conhecer intimamente os males de que enferma a côrte, a auctoridade do seu caracter, emfim, o sentimento do dever e um sentimento rigoroso e inabalavel que, de resto, se nota em todas as suas poesias, leva-o a nada encobrir ao rei. A carta a D. João III é filha de uma convicção profunda, clara e persuasiva.

Não ha duvida que a humanidade de si esconde vicios. Mas a falsidade é o peior mal e que mais irreparaveis damnos póde causar.

Onde ha homens, ha cobiça,
Ca e la tudo ela empeça,
Se a santa igual justiça
Não corta ou não desempeça
Quanto a malicia enliça.

Sá de Miranda experimentara os maiores desenganos n'essa côrte corrupta e enganadora que repugnava ao seu caracter franco e leal e que o levara a retirar-se para o Minho. Dando satisfação d'esse passo ou antecipando-se a solicitações a que não desejava acceder, justifica-se cabalmente de seu procedimento.

Quem graça ante o rei alcança
E i fala o que não deve,
(Mal grande da mâ privança!)
Peçonha na fonte lança
De que toda a terra bebe!
Quem joga onde engano vai,
Em vão corre e torna atras,
Em vão sobre a face cai.
Mal hajão as manhas màs
De que tanto dano sai!
Homem d'um sô parecer,
Dum sô rosto e d'ũa fe,
D'antes quebrar que volver,
Outra cousa pode ser,
Mas de corte homem não é.
Gracejar ouço de ca
Dos que inteiros vêm e vão
Nem se contrafazem la:
Como este vem aldeão!
Que cortesão tornará.

A famelica côrte, astuciosa e matreira, ria-se da rudeza do aldeão. Demais o sabia Sá de Miranda. Elle, porém, não se ri, mas com a sua penna acerada fal-os sangrar e enraivecer. Anima-o a ser franco a bondade com que, espera-o, el-rei se dignara acolhel-o.