Senhor, hei vos de falar
(Vossa mansidão me esforça)
Craro o que posso alcançar:
El-rei estava rodeado de uma camarilha infame, mansos cordeiros apparentemente, mas por dentro lobos robazes. Espinha de vime e falas de assucar, lisongeiros emeritos, os cortezãos não curam de mais que dos interesses proprios e, explorando torpemente a bondade do rei, pensam unicamente em servir o seu vil egoismo.
Andão pera vos tomar
Por manhas, que não por força.
Por minas trazem suas hazes,
Os rostos de tintoreiros.
Falsas guerras! falsas pazes!
De fora mansos cordeiros,
De dentro lobos robazes!
Tudo seu remedio tem;
Que é assi, bem o sabeis,
E o remedio tambem.
Querei-los conhecer bem:
No fruito os conhecereis.
Obras que palavras não!
Porem, senhor, somos muitos,
E entre tanta obrigação
Trasmalhamos nossos fruitos
Que não saibais cujos são.
Um que por outro se vende,
Lança a pedra, a mão esconde,
O dano longe, se estende.
Aquele a quem doi, se entende,
Com sôs sospiros responde.
A vida desaparece;
Entretanto geme e jaz
O que caiu! e acontece
Que d'um mal que se lhe faz,
Môr despois se lhe recrece.
Pena e galardão igual
O mundo em peso sostem.
É ũa regra geral
Que a pena se deve ao mal,
O galardão ao bem.
Se algũa ora aconteceu
Na paz, muito mais na guerra,
Que d'esta lei se torceu,
Faz se engano ás leis da terra,
Nunca se faz ás do ceo.
São saccos sem fundo os miseraveis, exploradores ignaros dos fracos. Nomes e rostos honrados encobrem bandidos consummados. Desgraçados dos pequenos que nem sequer podem fazer chegar seus clamores até ao rei. Esteja o monarcha vigilante e atalhe com firmeza o mal.
Não têm fundo aqueles sacos.
Inda mal com tantos meos
Pera viver dos mais fracos
E dos suores alheos.
Que eu vejo nos povoados
Muitos dos salteadores
Com nome e rosto de honrados
Andar quentes e forrados
De pelos de lavradores.
E senhor, não me creais
Se não as achão mais finas
Que as dos lobos cervais,
Que arminhos nem zebelinas.
Custão menos, valem mais.
Ah senhor, que vos direi
Que acode mais vento ás velas?
Nunca se descuide o rei,
Que inda não é feita a lei,
Ja lhe são feitas cautelas.
Então tristes das molheres,
Tristes dos orfãos cuitados,
E a pobreza dos mesteres!
Que nem falar são ousados
Diante os môres poderes.
Esplendido caracter o de esse homem de uma franqueza verdadeiramente sem egual. Se os reis tivessem sempre conselheiros assim leaes, quantas desgraças não evitariam aos seus subditos, quantas injustiças não lhes poupariam! E, necessariamente, essa admiravel carta encerra allusões directas a acontecimentos conhecidos de D. João III, mas que hoje são difficeis de traduzir.
A ex.ma sr.ª D. Carolina de Vasconcellos, considerando particularmente a Carta a El-Rei, aprecia-a como um desforço contra a injustiça com que trataram o poeta, porque só ouviram seus inimigos e não lhe concederam sequer o direito de pedir satisfação pelas armas ao poderoso que o calumniou. Não iremos tão longe, mesmo porque não está ainda averiguada a certeza da perseguição de que se diz ter sido victima Sá de Miranda, mas, dado que a escrevesse com uma intenção de desforra, nem por isso se deixará de avaliar em seu justo valor a famosa carta.
Em a dirigida a João Ruiz de Sá de Menezes, o poeta insiste em os perigos que teme para o paiz. O bom patriota, lá do seu retiro do Minho, nem um só momento esquece o que devia á patria.
Estes mimos indianos
Hei gram medo a Portugal
Que venhão fazer os danos
Que Capua fez a Anibal.
Sá de Miranda curava-se, agora, com a philosophia. Temia mais os inimigos de casa que os de fóra. Eram aquelles que estavam promovendo a ruina de Portugal.