Cura me filosofia
Que me promete saude;
Dei lhe a mão, ela me guia,
Ouço falar da virtude;
Se a visse, sarar me hia.
Diz Platão, que é dos milhores,
Quem posesse os olhos nela,
Que verdadeiros amores
Sempre traria com ela.
Como digo, eu sô de ouvir
Ando como homem pasmado,
Desejoso de a seguir,
Chorando todo o passado,
Temendo todo o porvir.
De fora ha muitos perigos
A cuja lembrança temo,
Em casa aqueles imigos
Que eu mais que os de fora temo.
E, mais que nunca, votava a sua attenção para os grandes modelos da litteratura classico italiana. Lia-os e relia os com admiração, não se cançando de os estudar e de procurar desvendar os mysterios de sua inspiração.
Aqueles cantares finos,
A que liricos disserão
Os Gregos e os Latinos,
Digão me donde os houverão
Salvo dos livros divinos?
Quantos que d'ahi ao seu
Trouxerão auguas á mão.
Regou Pindaro e Alceu,
E em môres prados Platão!
Mas é o que ora aprendo
Ler por eles de giolhos,
De que sei quam pouco entendo.
Mas fossem dinos meus olhos,
De cegar sobre eles lendo!
Que, dos seus misterios altos
Assi lubrigando vejo
Que não são pera tais saltos:
Gemo sômente e desejo.
Indubitavelmente a carta a João Ruiz de Sá de Menezes foi, tambem, escripta antes de Sá de Miranda se casar. Indica-o as allusões que faz ao amor e as duvidas com que mostra luctar antes de se resolver a esse passo decisivo.
Fui posto em gram diferença
Se casaria, se não?
Houve de sair sentença
Que a sô ũa desse a mão,
Ás outras boa licença.
A composição que mais absorveu os cuidados de Sá de Miranda foi a ecloga Basto, cheia de intimas confidencias. O poeta, parece, levou toda a sua existencia a depural-a, chegando mesmo a refundil-a. Conhecem-se d'ella umas quatorze variantes mais ou menos desiguaes, das quaes as mais antigas são escriptas em decimas e as mais recentes foram reduzidas a estrophes de oito versos.
Encantadora essa ecloga em que Sá de Miranda deixou correr a sua penna livremente, sob o impulso da inspiração popular. É a Basto um dos monumentos mais bellos de nossa litteratura e um dos melhores quadros de nosso viver intimo em o seculo XVI, frisando admiravelmente o contraste entre a sociabilidade urbana e a insociabilidade rustica, ou melhor, entre a vida palaciana, toda de prazeres, e a do campo, entre ares e caracteres puros. Formosa descripção de costumes minhotos, originalissima, os episodios simples e graciosos tocam pela ingenua candura de um verdor e transparencia de agua corrente. O dialogo é sereno, mas vivo.
A Basto seduz tanto pela elegancia da phrase e pelo subtil do descriptivo, que se é tentado a consideral-a como a melhor composição poetica de Sá de Miranda. As suas bellezas, incontestaveis, passaram indifferentes a muitas gerações que n'ella achariam um modelo digno de estudo cuidado. O que prova quão transviados da tradição nacional, tão rica de primores, têm andado quasi todos os nossos poetas.
Um dos episodios mais admiraveis pela sua simplicidade expressiva aqui o reproduzimos, segundo o ms. enviado ao principe D. João.
O moço que entra em terreiro
E não toca o chão de leve,
Polo ar voa o pandeiro,
E a toda a festa se atreve
Ele sô com seu parceiro,
Este tal baile, este cante,
Este seus jogos ordene,
Corra, va, pase adiante,
Este voltee, este espante,
Este dê penas e pene!
Mas quem já se vêm das pontas,
Não acha o que soía em si,
Começa entrar noutras contas:
Ouvi ja milhor e vi,
Suar e passar afrontas.
Vai se o tempo, tudo foge,
Corre o dia após o dia;
Queres que homem não se anoje?
Que me não conheci hoje
Nũa fonte em que bebia.