Este interessante descriptivo ou episodio, como queiram chamar-lhe, foi posteriormente aperfeiçoado pelo poeta. Em a variante que passa como a melhor da ecloga, apparece elle posto na bocca de Bleito assim:
O moço que entra em terreiro
E não toca o chão, de leve.
Sô ele co seu parceiro
A toda a festa se atreve,
Este tal jogos ordene,
Este nas aldeas more,
Este balhe, este namore,
Este dé penas e pene;
Este os seus contentamentos
Diga em cantares nas vodas,
Este nos ajuntamentos
Dê mil voltas, no ar todas,
Este quando lhe aconteça
Que em Filipa ou em Marta sonha,
Ós domingos feitos ponha
Ou das malvas na cabeça;
Deixe o gado sô no monte
Em perigo, e corra a terra
Por saber quem vai á fonte
Depois que a noite se cerra;
Este tenha e perca arrufos,
Este logre abril e maio,
Este dé golpes no saio
E todo se empole em tufos!
Mas quem cuida e lança contas
Que tanto e tanto relevão,
Que fará? tu não te afrontas
Coa pressa que as vidas levão?
Passa pera sempre o dia,
Passa o ano, tudo foge.
Que me não conhecia hoje
Vendo me quando bebia;
Antes, quando ia beber
Sequioso e mui cansado,
Houvera d'esmorecer
Vendo me assi tam mudado.
Responde Gil com uma esplendida apologia da vida simples do campo, vivendo livre, entregue aos cuidados da previdente natureza. As vantagens e os encantos d'essa existencia feliz são deliciosamente expostos, salientando-se pela convicção que lhe imprime o poeta.
Andando assi não me empecem
Maos olhos nem mas palavras,
Nem me temo se engafecem
Entre nosoutros as cabras,
Nem menos que o meu cabrito
Me furte o vezinho e coma;
Aqui, se paixão me toma,
Posso cantar voz em grito,
Com estas aves, que tais
Duas aventagens têm
D'esses outros animais,
Voar e cantar tam bem,
Ou ao som d'agua que cai
Rompendo polos penedos,
Eles que sempre estão quedos,
Ela que a gram pressa vai.
Dá me de que me mantenha
Este meu gado com leite,
Acho polo monte lenha,
Acho abrigo onde me deite
E faça quanto quiser.
E a noite tras a fogueira
Trago isca e pederneira,
Vinho não-no hei mester.
Ves tu a minha cabana?
Como o tempo acode, assi
A mudo. Nem Guiomar nem Ana
Não dão voltas por aqui,
Que me façam merecer
Muitas d'estas varapaos
Com seus olhos vaganaos
Bons de dar, bons de tolher.
Passado o frio e a neve,
Quando ó gado é cousa sã
Andar trosquiado e leve,
Visto me da sua lã.
Abasta me o seu sobejo
Pera tudo que hei mister;
Assi como o ano quer,
Assim com ele me rejo.
Para cousas que acontecem,
Trago comigo rafeiros
Que outras suas mãis parecem
Das mãis dos seus cordeiros.
Inda que se a ovelha esqueça
A trasparida e maltreita,
O cão cab' ela se deita
Té que eu em busca apareça.
Deixa me ver este ceo
E o sol como vai fermoso.
Que gram caminho correu
Desd'hoje e quam espaçoso,
Vai seguindo a outra párte,
Irá ver gente estranha,
Outra terra, outras montanhas
Que de nos não sabem parte.
Deixa me ver estas flóres
Tantas que nacem de seu!
Que este é o meu mal d'amores,
Ou de fora, ou de sandeu,
E mais, se inda mais quiseres,
Sicais que será verdade.
Porem tenha eu liberdade!
Dé vos deus muitos prazeres!
Aqui não sou com vezinhos
Cada ora aos empuxõis,
Nem sei sômente o caminho
Da vila e seus são Juõis,
Que, em vez de matar, avivão
Outra vez as diferenças.
Que te aproveita que venças
Se vencendo te cativão?
Sá de Miranda, como moralista eximio que era, pois a sua poesia visava sempre a instruir, a educar, não a simples distracção, servia-se frequentemente da allegoria e da fabula. Na ecloga Basto demonstra a forma brilhante como sabia applicar as velhas fabulas classicas, ou ainda as que corriam entre o povo, ao seu intuito conceituoso. A licção dellas tirada é sempre a mais apropriada.
Ha em a Basto duas bellas fabulas: a de Gil Ratinho e a do Bacoro Ovelheiro. Engraçadissima a primeira.
Fui um dia a vila, Gil,
E logo, ó sair da casa,
Mais verde que um perrexil
Cuidei que matava a brasa
De galante e de gentil.
Bem passei cos viandantes
Mas despois la, quando cheas
Vi ruas de outros galantes,
Se eu viera ufano de antes,
Não tornei tal ás aldeas.
Dezia um vendo me assi:
Bom vai o do barretinho!
Outros dar os olhos vi,
Outros chamar me ratinho,
Tanto tê que me escondi.
Finalmente por acerto
Vi algums nossos de ca,
Deixei os chegar mais perto,
Meti me antre eles por certo.
Que tarde me acolhem la!
Não menos conceituosa a do Bacoro Ovelheiro.
Um bacorote orgulhoso
Deu vista ó gado ovelhum,
De quexiquer espantoso
Trombejava ele um e um,
Andava todo bravoso.
Vem o lobo um dia e apanha
Polo pescoço o doudete,
Abrandou lhe aquela sanha,
Brada ai dos meus; em tamanha
Pressa ninguem arremete.
Vinhão os porcos da aldea
Mais atras, grunhir ouvirão;
Cada um d'eles esbravea,
Estes si que lhe acudirão:
Perde o lobo a sua cea,
Ele solto, viu que o gado,
Da lã branca estava olhando
De longe, ainda amedrontado.
Antes, disse, ser mandado,
Que a tal perigo tal mando.
Esta preciosa allegoria?