Do leite e sangue empolado
O bezerrinho viçoso
Corre e salta polo prado,
Despois lavra perguiçoso,
Tira o seu carro cansado.
Cos dias e co trabalho
O brincar d'antes lhe esquece,
Não é ja o que era almalho,
Venda se pera o talho
Que este boi velho enfraquece!
Ainda nenhum escriptor portuguez tratou com tanto engenho o fabulario, ainda nenhum o applicou tão bem e lhe deu tão bello relevo. Sá de Miranda allia delicadamente a grandeza com a graça, a par de uma maneira simples e primorosa de contar.
Em a carta que posteriormente dedicou a seu irmão Mem de Sá, o poeta utilisa admiravelmente a fabula de o rato do campo e o rato da cidade. Sá de Miranda conta-a em referencia á sua situação, convencido de sua verdade que tanto ao vivo sentira. Realmente não valeria mais o pouco a par das alternativas das grandezas? O poeta podia responder afoutamente.
Essa linda fabula, de origem grega diz-se, mas verdadeiramente anterior aos hellenos, espalhada na antiguidade sob o nome de Esopo, tem tido enumeras imitações. O Arcypreste de Hita tratou-a com grande relevo. La Fontaine tambem lhe deu um certo brilho e a sua fórma é das mais espalhadas entre nós. Pois, de todas as imitações modernas, a mais valiosa é a de Sá de Miranda. Isto, como o reconhece a ex.ma sr.ª D. Carolina de Vasconcellos, sob o ponto de vista da espontaneidade, da graça natural e da travessura ingenua.
Quem as confrontar deve reconhecer a justeza da nossa apreciação. Para a vulgarisar a reproduzimos, embora seja um pouco extensa.
Um rato usado á cidade
A noite o tomou por fora;
(Quem foge á necessidade?)
Lembrou lhe a velha amizade
D'outro rato que ahi mora.
O qual assi salteado
De um tamanho cidadão
Por lhe fazer gasalhado
Dá mil voltas o coitado
Que não põi os pés no chão.
Faz homem a conta errada,
(Que mil vezes acontece)
Cresceu me muito a jornada,
Diz, entrando na pousada
O cidadão que aparece.
Estoutro poendo lhe a mezinha,
Põi lhe nela algum legume;
Mesura quando ia e vinha,
Deu lhe tudo quanto tinha,
Pede perdão por custume.
Cumpre muito aquela mesa
Mais da fome que da gula;
Faz claro a fogueira acesa;
Mostra bom rosto á despesa.
Vem o outro e dissimula.
E está dizendo consigo:
Este não foi pera mais!
Que vai de Pedro a Rodrigo!
Bem diz o enxempro antigo
Que os dedos não são iguais!
Ora despois de comer,
Jazendo detras o lar,
Começa o rico a dizer:
Dous dias que has de viver
Aqui os queres passar?
Na secura de um deserto
Que não sei quem o soporte,
De urzes e tojos cuberto,
Sendo tudo tam incerto
E tam certa sô a morte?
Vive, amigo, a teu sabor;
Mais é que cousa perdida
Quem por si escolhe o pior.
Vai te comigo onde eu for,
La verás que cousa é vida.
Des que um e outro provares,
(Que eu de outrem não adevinho)
Quando te não contentares,
Aqui tens os teus manjares
I tambem tens o caminho.
Assi disse! Eis o villão,
Em alvoroço e balança,
Ia e vinha o coração
Ora si, e ora não.
Venceu porem esperança!
E que deve i al fazer?
Vive de tanto suor!
Inda não pode viver,
Não pode o ano vencer,
Sempre a saida é milhor
E diz: Quem não se aventura,
Não ganha! Rezõis contadas,
Escolhem ora segura,
Entrão por ũa abertura;
O rico sabe as entradas.
Vão se por paços dourados,
Todos cheirosos da cea,
Tristes dos casais coitados
Do sol e vento torrados!
Pobre e faminta da aldea!
Vou me por meu conto avante:
Amostra o cidadão tudo
Que traz no bucho um infante;
Vão os seus gabos diante.
Pasmado o outro anda mudo,
Que tam sômente em provar
Das cousas que i mais lhe aprazem,
Ja começão de engeitar;
Fartos pera arrebentar
Sobre bons tapetes jazem.
Nisto o despenseiro chega
(Que estes bens não durão tanto);
Ve os ele, a pressa o cega,
Um lanço e dous mal emprega,
Corre os de canto em canto,
Os cãis á volta se erguérão,
Ladrão, (que é alto o serão)
As casas estremecérão,
Ums e outros i corrérão;
Foi dita que os gatos não!
Sabia o maior da manha,
Sabia a casa, e fogiu;
Ó ratinho da montanha.
Ós pés em pressa tamanha
Ó coração lhe caiu.
Mas espaçado o perigo
E a morte que ante si vira,
O coitado assi consigo,
Por seu asessego antigo
Que mal deixara, sospira:
Minha segura pobreza,
Se chegarei a ver quando
A vos torne? e esta riqueza,
Mal que tanto o mundo preza,
Fuja (se poder) voando?
Ai baldias esperanças!
Meu entendimento fraco!
Que al temos das abastanças?
La guardai vossas mostranças,
Deus me torne ao meu buraco!
Das composições poeticas de Sá de Miranda pode-se destacar um fabulario do mais alto e inapreciavel valor. Ainda ninguem soube fazer-lhe a merecida justiça de uma edição condigna. Não devem os nossos editores curar unicamente de propagar a litteratura de além Pyreneus, sendo para desejar que as suas boas escolhas recaiam especialmente em o muito que ha das boas lettras em Portugal.
Em 1536, Sá de Miranda casou com D. Briolanja de Azevedo, irmã de Manuel Machado, opulentissimo senhor de Entre-Homem e Cavado, em o alto Minho, e muito da amizade do poeta da Tapada. O enlace parece ter sido resultado de amor mais do que de desejo de gosar o viver modesto e socegado da familia.
A analyse de algumas das poesias de Sá de Miranda leva a inferir que D. Briolanja era uma senhora formosa e que elle, por a ver, concebeu paixão por ella. Seus cabellos brancos, mais causados pelos desgostos que pela edade, ainda que o poeta andasse pelos cincoenta annos, far-lhe hiam receiar ser repellido.
E o poeta não hesitaria tambem em perder a sua liberdade varonil ao casar-se? Camillo Castello Branco, com o seu conhecido humorismo, diz que o haver sido Sá de Miranda marido exemplar não fará deprehender que fosse descaroavel para com as demais mulheres. Como homem bem morigerado pelos annos déra á esposa o coração estreme, escreveu o grande romancista, excluindo d'essa entranha arisca todas as mulheres a quem apenas concedia licença—uma concessão assaz agradavel, qualquer que fosse.