É o poeta que o declara na carta a João Ruiz de Sá de Menezes, evidentemente escripta antes do casamento.
Fui posto em gram diferença
Se casaria, se não?
Houve de sair sentença
Que a sô ũa desse a mão,
Ás outras boa licença.
Isto assentado, Amor deu
Claro sinal que era ali;
Eu o som do coldre, eu
O som das setas ouvi,
Amor, que estás sempre avindo
E junto á propria verdade,
Sejas por sempre bem vindo
Ao entregar da vontade,
Que entrego em te aqui sentindo,
Põi do teu fogo a esta casa!
Arça sempre e nunca abrande,
Que deus é fogo que abrasa:
Sei o de um privado grande!
Da força do amor diz Sá de Miranda em o soneto seguinte:
Mas que não pode Amor? Fez me engeitar
Tam levemente a mim por quem me engeita.
Castelos de esperança e de sospeita
Faz, e não sei que faz! é tudo um ar.
Fez me pedras colher, fez mas lançar.
A alma, apertando as mãos, toda encolheita,
Á força que fará e á lei estreita
Que em fim, queira ou não queira, ha de passar?
Como, e tão cego era eu que da vontade
Fiei tudo, que tudo a traves guia,
Tam gram contraira minha e da verdade?
Que al se podia esperar d'ũa tal guia?
Cai onde ora jaço; oh crueldade!
Não sei quando é noite ou quando é dia.
A lenda, porém, pretende que a D. Briolanja era tão feia de rosto como de nome e, para mais, velha e tropega. A Vida refere até uma engraçada historia a respeito d'esse consorcio. Conta que estando o poeta em a Tapada, logrando quietamente o fruto de seus estudos e peregrinações, casou com Dona Briolanja Dazevedo filha de Francisco Machado senhor da Lousãa de Crasto Darega, e das terras de entre Homem e Câvado e de Dona Ioana Dazevedo sua molher, com a qual viveo annos em grande conformidade sendo ella tão pouco fermosa exteriormente e de tanta idade que quando a pedio a seus irmãos Manoel Machado e Bernaldim Machado, por ser seu pay já morto, não quiserão elles differir-lhe ao casamento, sem que primeiro visse bem a noyva, e sendo-lhe mostrada pollos irmãos, disse para ella, castigay-me senhora com esse bordão, porque vim tam tarde...
Camillo Castello Branco, achando, e com toda a razão, exquisito que a noiva do dr. Francisco de Sá recebesse o noivo de aggressivo bengalão alçado, viu um erro typographico n'aquelle adjectivo articular esse, que deveria ser este. Quem levaria o bordão seria o poeta que, ao cumprimentar graciosamente a linda noiva, diria:—Castigai-me, senhora, com este bordão porque vim tão tarde.—Significava assim que entrara em o declinar dos annos por haver passado os quarenta e cinco, ao passo que D. Briolanja estava em pleno brilho da mocidade.
O sr. Theophilo Braga crê que da má comprehensão do dito a que allude a Vida e que ficou em proverbio se formou a tradição de ter Sá de Miranda casado com uma senhora velha e feia. Em verdade, não se póde acceitar semelhante lenda, visto que da leitura das composições do poeta, dos parabéns com que se felicita, se deprehende tratar-se de uma senhora, muito pelo contrario, nova e formosa. Que, ao mesmo tempo, o poeta frisa bem a sua edade avançada. O dito do castigae-me deve antes ser olhado como uma galanteria bem comprehensivel em um cavalheiro de trato tão esmerado como era o poeta.
Foi em extremo venturoso esse enlace. D. Briolanja era senhora de elevadas qualidades moraes, de preclaras virtudes e animo levantado. Sá de Miranda, estimando sobretudo os dotes dalma daquella matrona, que foram excellentes... do descanço de seu marido, da criaçam de seus filhos, da doutrina de seus criados e do provimento de sua casa, dedicou-lhe uma affeição tão sincera quanto intensa.
Vida santa, vida amantissima a d'aquella familia exemplar. Sobrio e austero comsigo, Sá de Miranda era largo com algum excesso cos hospedes que indifferentemente agasalhava com gosto particular, costumando a dizer que o livravam de si o tempo em que os conversava. As festas familiares eram distracções para o seu melancolismo, cujas causas tem resistido a todas as investigações. Essas visitas proporcionavam ao poeta horas agradabilissimas de um convivio doce e terno. Vieram depois os filhos e com elles novos cuidados a Sá de Miranda que sempre procurou dar-lhes uma educação primorosa, fazer d'elles cavalleiros esforçados e honestos. Ao mais novo, Jeronymo, com nam ser muy rico, mandou-o aprender musica tendo em sua casa mestres d'ella custosos.
Após seu casamento com a irmã de Manoel Machado, Sá de Miranda voltou novamente e com afinco á propagação dos metros italianos. Animou-o talvez o exito alcançado em Hespanha por Garcilaso e Boscan que acabavam de triumphar impondo-se. A grande reforma litteraria vencera ali finalmente.