As poesias dos dois poetas hespanhoes exerceram sobre elle, n'este ultimo periodo de sua actividade poetica, uma influencia decisiva, influencia que foi até passar a escrever quasi todas as suas eclogas de metro hendecasyllabico em hespanhol. É que a harmonia meiga e suave d'aquellas poesias o seduziu a ponto de considerar a lingua castelhana como mais melodiosa, mais euphonica que a portugueza, que difficilmente se ia pulindo e abrandando.
A influencia do grande lyrico hespanhol, de Garcilaso, dominou esta nova serie de producções do famoso poeta quinhentista. Falto de espirito de originalidade, o unico e verdadeiro defeito que se lhe póde encontrar, Sá de Miranda mais uma vez se acostou aos espiritos que se evidenciavam pelo talento e serve-se quasi das mesmas formas metricas e dos mesmos artificios. Comtudo, vae além do que Garcilaso e Boscan ousaram, intercalando redondilhas, á laia de coplas cantadas, em meio dos versos de onze syllabas.
Muitas passagens encantadoras, de uma vaga magia, se encontram nas eclogas em hendecasyllabos hespanhoes. Rescendem ellas um sentimento profundo e têm uma rara vivacidade. Mas, como o faz notar a ex.ma sr.ª D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, não agradarão a todos por haver n'ellas, por vezes, transicção abrupta de certos dialogos em estylo simples, á moda de Theocrito, para canções de um idealismo, de um platonismo indeciso. Fluctuação immotivada, embora rara, entre as formas cultas italianas e os metros da velha escola peninsular, mistura de uma philosophia ideal com uma serie de traços realisticos tirados da vida dos pastores portuguezes e promulgados em um tom intencionalmente rude e energico, esta desigualdade faz desmerecer muito a belleza d'essas composições que a têm innegavelmente. O poeta, ainda pouco seguro dos modelos que procurava egualar ou muito aferrado á tradição nacional para romper completamente com ella, como que hesita, titubia em suas innovações.
Por essa época e até 1538, escreveu as eclogas Celia, Andrés, o Epitalamio Pastoril, o Encantamento e, em o outomno de 1537, a ecloga Nemoroso, destinada a commemorar o anniversario do fallecimento de Laso. D'estas producções, em que uma critica desapaixonada e rigorosa poderá encontrar meritos dignos de louvor, destacam-se a Andrés e a Celia.
A ecloga Andrés é uma sentidissima referencia a tristes acontecimentos passados, a que o poeta assistira certamente com a mais cruciante magoa. Descreve as peripecias do casamento do infante D. Fernando, irmão de D. João III, com D. Guiomar, conhecida na ecloga pelo nome de Pascuala. Ha n'ella passagens vívidas de sentimento. A bella alma do poeta manifesta-se com um suave e palido brilho de lua de maio.
Da frescura deliciosa, da admiravel simplicidade d'essa excellente composição, dirá esta passagem, uma das capitaes n'ella:
Aun las fieras salvajes quantas son
Vencer se dejan de humanidad buena;
El toro bravo, el mas bravo leon
Con tiempo muestran que pierden la pena,
El uno en iugo, el otro en la prision.
Si la voz conocida al aire suena
Del halconero, abaja desde el cielo
A prender se el halcon mas que de vuelo.
Todo lo vience el tiempo i la porfia:
En marmol duro si el agua desciende,
Ella tan blanda cava todavia;
Es duro el hierro, gasta se por ende;
Lo que no puede un dia, haze otro dia.
A las sus fuerzas, quien se le defiende?
Durisima Pascuala quanto en ti
De amor, trabajo, fe, tiempo perdi!
Vemos la golondrina vuelto el pecho
Al viento como un raio ir se volando,
Ora en cielo, ora en tierra, a trecho a trecho,
Que la vista la va mal devisando.
Contra la vena de agua por derecho
Van truchas las azudas trespasando.
Con quantas aves de entre dia vuelan,
Otras la noche escura se desvelan.
Ha i animales que a los nuestros fuegos
Se acogen, constreñidos del mal frio,
Otros no vence estonces, como juegos;
Aves del cielo biven por el rio,
Otros se esconden por la tierra ciegos;
Biven del fuego, biven del rocio:
No sé de condicion que eres Pascuala
Pero no de mujer, no de zagala,
Mas antes de zagala i de mujer!
Que debajo de aquella vista hermosa,
Tan llegada al divino parecer,
Escondió la natura artificiosa
El maior mal que pueden ojos ver,
Engaño que haz la pena deleitosa,
Ponzoña de gran fuerza! mata el vel-las,
Mata el oil-as, mata el oir d'elas!
Oh que haias mucho de mal grado, Amor
Que ansi nos turbas el entendimiento?
Al maior daño diste mas sabor,
Errado el peso, la medida, el cuento,
Donde se sigue que de tal error
Se vengan recreciendo ciento a ciento,
Qual fuente avelenada perenal
Donde mana despues tanto de mal!
Suerte mucho cruel que tal consiente?
Logo abaixo da Basto, embora em verdade muito inferior, pode ser collocada a Andrés. A Celia, dedicada ao infante D. Luiz, não é tão mimosa, porém quasi lhe eguala em sentimento. O poeta canta uma mulher desapparecida, o amor querido do alludido principe.
Ai Celia! quantas lagrimas devidas
Te son! i quantas, si remedio diesen
A cosa alguna de mas a las vidas
Por quien costumbre quiso se vertiesen
En vano tantos tiempos, si no havidas
De los mas sabios por flaqueza fuesen.
No digo mas de si ni mas de no
Son que causa terná quien nos las dió.
Aquel dolor que va turbando dentro
De cuerpo i d'alma todos los sentidos,
Pasando al corazon que es el su centro,
Las lagrimas de alla manda i gemidos
Que abran camiños a aquel duro encuentro;
Sino, que es fuerza, siendo detenidos,
Con el fuego encerrado i las centellas
Ardan las casas i el señor con ellas.
.........................................
Estés por siempre, buena Celia, en gloria
I siempre en fama qual dejaste aqui;
Deve se tal corona a tal vitoria
Del enemigo, del mundo, i de ti,
Duros contrarios que en nuestra memoria
No sé vencidos quien los haia ansi;
Derechamente corriste a la palma,
Dejaste el cuerpo atras, avante el alma.
Em 1538, apresentou o poeta a sua segunda comedia classica Os Vilhalpandos, escripta em prosa como a primeira. Esta e os Estrangeiros, o Cardeal D. Henrique que depois foi Rei, tam pio, tam zelador da Fé, e dos bons costumes, reformador das Religiões, Legado á Lattere, Inquisidor-Môr, não só lhas mandou pedir pera as fazer (como fez) representar diante de si por pessoas que depois foram grandissimos ministros... senão pouco despois de Francisco de Sá morto, porque se ellas nam perdessem as fez imprimir ambas em Coimbra na forma em que andam e as tinha e lia muitas vezes.