O visconde de Almeida Garrett, traçando um pequeno esboço da Historia da lingua e da poesia portuguesa, mostrou-se da opinião que as comedias de Sá de Miranda eram para admirar e constituiam um notavel monumento para a historia das artes pela feliz imitação dos antigos e pelo que excedem quanto até então se tinha escripto. Justo n'esta apreciação, Garrett deixou-se, comtudo, levar pelo pessimismo de considerar funesto o impulso dado por Sá de Miranda ao theatro portuguez, funesto e como tendo-o destruido ao nascer. N'esta mesma direcção, Andrade Ferreira acha que a influencia italiana não deu de si mais que a memoria de varias tentativas eruditas.

Comprehende-se que o publico preferisse o theatro tal como o apresentava a musa negligente e faceta de Gil Vicente e João Prestes, em que havia sido creado e que o interessava porque o divertia. Natural que antes quizesse as jocosidades por vezes grosseiras dos autos populares a conservar a sua grave compostura ante as subtilezas da arte e correcção das comedias ao gosto classico, a que não estava habituado e que o não deixavam á vontade, acabando por o fazer bocejar. Parece-nos, exagero, porém, inferir d'ahi a funesticidade da obra de Sá de Miranda.

Seriam as comedias de Sá de Miranda faltas de caracter nacional e improprias para dar uma boa direcção ao theatro portuguez? Só um estudo profundo e demorado o pode decidir. Foi, todavia, essa corrente de reforma do theatro pela imitação da comedia classica que produziu essa obra immortal de Ferreira, a Castro, a primeira composição dramatica moderna, que reproduz o que existe de mais sublime e pathetico em um quadro de historia nacional, como escreve Andrade Ferreira.

O final de este periodo de actividade litteraria de Sá de Miranda foi assignalado por uma nova carta em redondilhas, dirigida a seu irmão Mem de Sá. Esta carta deve datar-se de pouco depois de 1543 porque allude á morte de D. Duarte e de Boscan.

Mem de Sá, ao contrario de seu irmão, procurava elevar-se pelas honrarias da côrte e alcançava ascender aos mais altos cargos do estado. Como governador geral do Brazil, o seu nome cobriu-se de uma gloria immortal. Sá de Miranda, em sua carta, aconselha-o a evitar os escolhos da ambição e da vaidade para não ver a sua carreira naufragar inopinadamente. Para mostrar quanto mais valia a modestia do pouco em socego ante as incertezas inherentes ás maiores grandezas utilisa bellamente a celebre fabula do rato do campo e do rato da cidade.

Sá de Miranda confirma suas palavras com o exemplo de seu passado. Explica-lhe porque abandonou a côrte e descreve-lhe a vida tumultuaria que n'ella se passa e contra a qual se não podia já ir.

Polo qual a este abrigo,
Onde me acolhi cansado
E ja com assaz perigo,
A essas letras que sigo,
Devo que nunca me enfado,
Devo a minha muito amada
E prezada liberdade
Que tive aos dados jugada.
Aqui sômente é mandada
Da rezão boa e verdade.
Nas cortes não pode ser!
Vedes os tempos que correm!
E assí vemos té morrer
Irem muitos a correr
Por fugirem d'onde morrem.
Ora pôr peito á corrente,
Que sejais forçoso e são,
E de sangue inda fervente,
Gram nadador, claramente
É quebrar braços em vão.

Que valem as riquezas comparadas com a liberdade? Ambições que passam com a edade!

Buscar e sonhar privanças,
Dar de entrada a liberdade
Logo por vãs esperanças,
Esses jogos, essas danças
Passem coa mocidade.

Da fraqueza propria vem o medo á pobreza.