Fracos de fe! e de fraqueza
Vêm estes nossos suores,
Estes medos á proveza.

E que desgraçada existencia a d'aquelles que só vivem da ambição e para a ambição.

Andando assi neste enlheo
Em quantos erros caimos
Sem conto, sem fim, sem meo;
Dormimos o sono alheo
O nosso não o durmimos;
Queremos o que outrem quer,
O que não quer engeitamos!
Estamos sômente a ver,
Rimos o alheo prazer,
E ás vezes quando choramos.

A carta a Mem de Sá foi a ultima composição notavel do poeta da Tapada. Sá de Miranda nada voltou a produzir que se possa destacar e os seus trabalhos poeticos posteriores limitaram-se a moribundos clarões de um sol no poente. Emmudeceria ante a decadencia que escancarava a sua terrivel guella hiante com os primeiros horrores da Inquisição ou preoccupava-o em extremo o futuro dos filhos já homens ou, ainda, seria absorvido pela sua occupação mais constante de rever as obras antigas para as polir e aperfeiçoar, sobretudo a famosa e esplendida Basto, objecto dos seus mais dedicados cuidados e a que deu o maior realce? Talvez todos esses motivos concorressem para afrouxar a actividade do poeta.

Por 1551, o principe D. João, joven herdeiro do throno e que bem novo se declarava um decidido protector das lettras, mandou pedir a Sá de Miranda uma collecção de suas poesias. O poeta satisfez com empenho o pedido, sentindo-se n'elle não só honrado, como apreciado. Era aquella solicitação confirmativa de seu triumpho.

As composições poeticas de Sá de Miranda só em 1595, annos depois de sua morte, é que foram pela primeira vez impressas. Nem por isso sua influencia se exerceu menos accentuada, pois corriam manuscriptas de mão para mão amiga. Aquelle cenaculo da Tapada cedo se tornou o foco de onde irradiou a luz que trouxe a restauração da poesia portugueza, o centro do movimento poetico do paiz. O nome de Sá de Miranda foi sempre augmentando até se impôr aos outros quinhentistas com um predominio a que lhe dava jus a sua vasta e solida erudição, a auctoridade de seu caracter e a sua obra admiravel.

Em torno do venerando moralista e brilhante poeta começaram a agrupar-se, quer pela communhão de idêas, quer pelas relações pessoaes, os espiritos esclarecidos do tempo, como Ferreira, Diogo Bernardes, D. Manuel de Portugal, Francisco de Sá e Menezes, Pero de Andrade Caminha e outros. Soccorriam-se á sua experiencia, consultavam-o, ouviam-o e submettiam-lhe as suas producções.

Diogo Bernardes, ao tempo em que ainda se conservava em sua terra natal, Ponte de Lima, visitava a miudo a Tapada onde Sá de Miranda o recebia com a mais carinhosa intimidade. Em sua primeira carta, escripta em tercetos á maneira italiana, confessa que é a elle que toma por mestre.

O dôce estylo teu tomo por guia,
Escrevo, leio e risco; vejo quantas
Vezes se engana quem de si se fia.
....................................
Não te deram os céos graças tamanhas,
Para só as lograres, mas por seres
Bom mestre de artes boas, boas manhas.

Sá de Miranda recebeu com enthusiasmo essa estreia do novel poeta. Com a sua benevolencia paternal, dirigiu lhe este mimoso soneto: